Para começarmos a falar a respeito da contextualização do Evangelho durante a ação missionária da Igreja é necessário, antes de tudo, pensar em uma abordagem saudável sobre como devemos anunciar o evangelho. E isto envolve pensar a própria missão, o Evangelho, e como comunicar este evangelho sem diluí-lo, sem cair em sincretismos ou em relativismos, próprio dos nossos tempos

A missão da Igreja não é simplesmente atrair pessoas para dentro de uma instituição para se tornarem parte de um grupo ou de um clube. A verdadeira missão é ajudar pessoas a se tornarem a Igreja. E isto só é possível com o evangelismo e um subsequente discipulado que gerará discípulos saudáveis, maduros e comprometidos com o Reino. 

Assim, a evangelização, isto é, a proclamação do Evangelho, precisa ser contextualizada à realidade daqueles que desejamos alcançar. Em outras palavras, a mensagem da Pessoa, da Obra e da Palavra de Deus deve ser Fiel e exatamente como as Escrituras nos revela, porém, anunciada de forma significativa àqueles que estamos evangelizando, seja um grupo ou uma única pessoa, o evangelizado precisa receber a mensagem de maneira que faça sentido dentro da sua realidade, dentro do seu contexto cultural. 

E este anúncio pode ser verbal ou não-verbal. A Não-Verbal está relacionada à prática e a atividades da execução da missão. O Estilo de vida cristão, o Ensino Cristão, a Organização da igreja, a forma de cultuar à Deus, etc. Já, a Comunicação Verbal, é a comunicação do Evangelho revelado propriamente dito, considerando contextos culturais, religiosos, histórico, geográficos, dos evangelizados. 

E isso, podemos ver claramente no ministério do Apóstolo Paulo, em suas viagens missionárias, Paulo adapta os discursos da sua pregação para que seja mais facilmente compreendida a mensagem do Evangelho e, assim, ganhar o maior número de pessoas possível. 

O Apóstolo Escreve:  

Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da lei, tornei-me como se estivesse sujeito à lei, (embora eu mesmo não esteja debaixo da lei), a fim de ganhar os que estão debaixo da lei. 
Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, mas sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a lei. 
Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns.”  

I Coríntios 9: 20-22

Com “Tornei-me”, Paulo fez-se um missionário transcultural, isto é, adotou uma postura de buscar compreender os mais diversos contextos da sua época para que o Evangelho fosse compreendido da melhor forma possível, para alcançar o maior número possível de pessoas. 

Então, em Damasco, por exemplo, o Apóstolo Paulo começa a pregar na sinagoga da cidade, ou seja, em um contexto judaico. Dessa forma, entendendo que os judeus já compreendiam bem as promessas do Antigo Testamento a respeito do Cristo que viria, sua mensagem aos judeus estava focada em mostrar que Jesus é o Filho de Deus, o Cristo Prometido, Atos 9: 20-22

Já em Antioquia da Pisídia, havia judeus, porém ali havia muitos prosélitos e gentios, dessa forma, era necessário introduzir, antes, a história de Israel, até chegar em seu ápice, Cristo, o prometido Atos 13: 14-41

É notável como neste trecho Paulo contextualiza para todos, tanto judeus quantos os gentios pouco familiarizados com as promessas do Antigo Testamento, compreendem o que Paulo está pregando. 

Em seguida vemos Paulo em Listra, em um contexto gentílico e rural, assim, Paulo inicia sua pregação apresentando o Criador de todas as coisas criadas, que outrora havia permitido que as nações seguissem seu próprio caminho, porém, mesmo assim testemunhou a respeito de si mesmo na natureza “mostrou sua bondade, dando-lhes chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo-lhes sustento com fartura e enchendo de alegria os seus corações“. Atos 14:17

E, mais, além do contexto gentil, Listra era um ambiente rural, por isso, vemos o Apóstolo Paulo usando palavras ligadas a este contexto que seriam facilmente reconhecidas por quaisquer pessoas que estivesse naquele lugar. 

Em Atenas, vemos um contexto parecido com o de Listra, isto é, totalmente pagão, porém, mais sofisticado. Desta forma, a mensagem exige certo refinamento cultural. 

Como já vimos, Atenas era cosmopolita, urbana, plural. O centro filosófico da época. 

Assim, Paulo começa elogiando a vida religiosa da cidade, até que chega na “Divindade desconhecida”, o Deus que os gregos adoravam sem saber quem era Atos 17:22-23. A partir do “Deus desconhecido” e da revelação natural, o Apóstolo apresenta o Deus único e verdadeiro, que se fez conhecido pela revelação especial, Cristo Jesus. Apesar de Atenas estar completamente alheia as promessas do Antigo Testamento, os gregos tinham uma atração pela criação, e, consequentemente, pela figura de Criador. Então Paulo começa pelos atributos do Deus Verdadeiro, e finaliza em Cristo que é o centro de todo plano de Deus para a salvação da humanidade. 

Enfim, como já vimos, Paulo fez-se tudo para com todos para alcançar o maior número de pessoas possível. Isso quer dizer, ao pregar aos judeus, que odiavam a idolatria, o apóstolo iniciava pela Graça de Deus em Cristo, quando pregava aos gentios, antes os tirava das deturpações das religiões pagãs até chegar a Graça de Deus em Cristo. 

E dessa maneira, o importante é a mensagem correta, o evangelho, a Palavra de Deus. Isto é, a contextualização é o meio pela qual chegamos às pessoas, não o fim. Uma útil ferramenta para que um número maior de pessoas chega a compreensão do Evangelho. O conteúdo é Cristo! E Cristo é anunciado através de 3 informações básicas: Criação, Queda e Redenção

Deus é criador e soberano, Efésios 1: 3-6. Foi o Pecado que nos separou de Deus, Efésios 2:5. E, Jesus Cristo morto na cruz e ressuscitado no terceiro dia para a redenção raça humana, Hebreus 1:1-4

Para finalizar, o importante no processo de contextualização do Evangelho, é não esvaziar o Evangelho. A Mensagem deve ser entregue de forma acessível e completa. 

Esvaziar a Mensagem é um perigo real que devemos estar sempre vigilantes. O Evangelho dever anunciado em sua totalidade, dos elementos mais simples aos mais complexos. Por isso, como o Apóstolo Paulo fez, devemos fazer. Precisamos buscar conhecer o público, as pessoas que estamos evangelizando, ter interesse real por elas. 

Ao conhecê-las saberemos se estamos pregando a convertidos qua já conhece alguma coisa ou há alguém que não tem a mínima noção do que é o Evangelho. O Evangelho sempre será o mesmo, porém com abordagens diferenciadas para cada pessoa ou grupo que a desejamos anunciar. Seja qual for o caminho o objetivo é Cristo, o arrependimento e a conversão. Somente assim, é possível alcançar uma Igreja saudável e madura. 

Em síntese, o verdadeiro Evangelho deve ser pregado seja para a conversão seja para a rejeição! 

Referências:  

Robson R. S. Missão Urbana, fundamentos, desafios e implicações. Columbia, SC: Amazon, 2016. Digital.   

BÍBLIA, Estudo Palavra-Chave Hebraico e Grego. 4 ed. Rio de Janeiro. CPAD, 2015. Impresso.    

Marchall, I. Howard. Comentário Bíblico Vida Nova. D. A. Carson et.al. São Paulo: Vida Nova, 2017. Impresso.    

Keener, S. Carig. Comentário Histórico-cultural da Bíblia – Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018. Impresso.    

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