Em um quadro como este, como o da doutrina da providência, onde Deus está em tudo e controla todas as coisas que ocorrem em sua criação, de forma intima e pessoal, sem espaço para casualidades, é comum sermos remetidos a questões como e a “Responsabilidade Humana?” e o “Livre-arbítrio?”.  

Assim, é necessário prudência. Equilíbrio. Deus é a causa primeira de tudo! Porém para não cairmos em determinismos e, consequentemente, em pessimismo é preciso compreender que existem as causas secundárias e, essas causas secundárias estão vinculadas as responsabilidades humanas e seu arbítrio. 

A doutrina da providência é incrível e, ao mesmo tempo, nos remete a uma confiança o inominável em nosso Senhor. E mais, é uma doutrina extremamente importante para fé cristã, mesmo que, às vezes, infelizmente, mal compreendida.  

Mas, devemos admitir, realmente traz difíceis questões a serem respondidas, (Sproul, 2013), como a relação entre a “soberania divina e a responsabilidade humana?”, “como um Deus bom e justo governa soberanamente um mundo marcado pela maldade?”, e o “Sofrimento à qual os seres humanos estão sujeitos”, ou ainda podemos ir mais longe, “como nossas orações pode influenciar um Deus onisciente, onipresente e onipotente?”. 

Isto é, entre política, economia, filosofia, história, biologia, etc. etc. etc. com o agravo evidente em compreender corretamente a doutrina da providência fica a pergunta, como a providência se encaixa na vida cotidiana moderna? 

Jean Paul Sartre (1905 – 1980), influente representante do existencialismo no século XX, acreditava que todos os indivíduos possuíam liberdade essencial, ou seja, são responsáveis por suas ações, suas consciências e a todos os demais aspectos referentes a si mesmo. Mesmo que o sujeito não queira assumir responsabilidades por si mesmo tal escolha já é uma decisão consciente que terá um custo para ele devido a inação (Kleiman, 2013). 

Sartre, mesmo percebendo o Homem como responsável por suas escolhas e, consequentemente, capaz de mudar o rumo da própria vida, o filósofo, utiliza esta noção, liberdade essencial, para questionar a verdade e a moral universal. Ou seja, introduz ao seu conceito de liberdade a ideia de ética e moral subjetiva. Veja o Episódio sobre relativismo. 

A liberdade, para Sartre, é, em realidade, a fórmula para o relativismo, onde cada indivíduo pode conceber a própria vida ética e moral que deseja seguir, ou seja, todo sujeito é livre para expressar seus próprios valores. 

Sartre, assim como K. Marx (1818 – 1883), é materialista, deseja um homem longe de Deus, deseja construir um ser humano que se preocupa única e exclusivamente com o mundo material, o mundo terreno. Sartre é como Nietzsche (1844 – 1900), compreende o Homem como aquele que constrói a si mesmo. Constrói a si mesmo com liberdade e responsabilidade, porém, em um mundo puramente material. Veja também o episódio sobre materialismo

Mas, claro, ao mesmo tempo que, esses filósofos, colocam nas mãos humanas toda liberdade e responsabilidade cria o sentimento de desamparo e angústia como se o nada pairasse sobre a alma humana. Um sentimento completamente oposto daquele criado pela doutrina da providência, onde o homem está intimamente preenchido em todos os aspectos de sua vida pelo seu misericordioso Senhor. 

O que Sartre realmente deseja é criar uma tensão entre fé e liberdade individual, liberdade à maneira que ele define, então, cria uma antinomia, que basicamente é uma contradição entre duas proposições filosóficas, por isso Sartre diz: “Se Deus existe o Homem é nada; se o Homem existe, Deus não existe” Goetz, personagem de Sartre em “O diabo e o bom Deus”.  

Para Sartre o livre-arbítrio não coexiste com fé (Bueno, 2007). Se o homem é livre não pode existir uma ordem universal de absolutos. 

Sartre, resumidamente, transforma o Homem em um ser de “paixões inúteis” e “sofrimento vão”. 

Mas, será verdade que a liberdade humana exclui a fé? Ou ainda mais longe será que liberdade humana impede a soberania de Deus? Vamos pensar um pouco. 

eNo século primeiro, no pensamento Farisaico, escola em que o Apóstolo Paulo fez parte (Fl 3:5), a ideia de livre-arbítrio não era estranha. No pensamento do primeiro século tanto a Judeus fariseus quanto de Gregos estoicos, escola que influenciou os fariseus, o livre arbítrio não representava uma contradição ao destino. 

Estamos falando de providência e não de destino. Destino, na cultura grega, é conceitualmente diferente de providência. Os saduceus, outro grupo judeu do primeiro século, por exemplo, negavam o destino, porém acreditavam na providência, mas é importante lembrar as influências no pensamento durante o decorrer da história, e, também, o argumento aqui é sobre do livre-arbítrio. Para ficar claro. 

Em suma, os fariseus, “(…) postulam que tudo é realizado pelo destino, entretanto, não privam a vontade humana de buscar aquilo que está na capacidade do homem visto ser do agrado de Deus que houvesse uma fusão e que a vontade do homem, com a sua virtude e vício, fosse admitida à sala do concelho do destino” (Aitken e Paget. Pg18). 

Esta posição dos fariseus se aproxima do pensamento estoico, onde o determinismo, ou seja, o destino, não é contraditório a ideia de livre arbítrio, mas, sim, compatíveis. (Aitken e Paget, 2019) 

Em Romanos 9 :17-18, o Apóstolo Paulo, cita a TORÁ, Êxodo 4:21 e 7:13, onde Deus diz: “Eu endureci o coração para que não deixe ir o povo”, porém, em Êxodo 8:15-32 e 9: 34, está escrito que Faraó endureceu seu próprio coração.  

Isto é, mentalidade bíblica, como expresso nos textos acima, não existe uma tensão entre a liberdade humana e a soberania de Deus – os fatos coexistem, não são contraditórios e excludentes como tentam fazer parecer os humanistas. 

Então, o que o Apóstolo Paulo faz em romanos 9: 17-18 é, usar a autoridade da TORÁ para se antecipar a possíveis questionamentos a respeito de sua doutrina da salvação, que está em Romanos 9:14.  

Ou seja, Deus sendo soberano sobre toda Sua criação decide dispor da Sua misericórdia como bem preferir Êxodo 33:19. Este é o caso de Faraó, à qual o Apóstolo nos chama a atenção, Deus não transformou o Faraó em ímpio, mas, simplesmente reteve Sua misericórdia entregando-o à sua própria impiedade (Bíblia palavra-chave) 

Outra coisa, a tensão no coração de Faraó, está no embate para que o Deus de Israel se torne conhecido entre as nações. Era uma guerra entre o Deus de Israel, o Verdadeiro Senhor contra o falso deus dos egípcios. 

O Faraó, no Antigo Egito, era considerado uma divindade, inclusive reverenciado pelos súditos, e, aparentemente, o Faraó que reinava na época de Moisés, considerava que era capaz de resistir ao Deus dos hebreus quando diz: “Quem é o Senhor, cuja a voz eu ouvirei, para deixar ir Israel?” 

Assim, o endurecimento do coração do Faraó, tem um objetivo claro, glorificar o Deus verdadeiro em humilhação ao deus falso – era um embate entre deuses, se é que é possível expressar nessas palavras – ou seja, o filho primogênito do deus falso morreria, enquanto o filho do Deus verdadeiro, aqui representado por Israel, viveria. 

Assim, quando vemos que Faraó endureceu o próprio coração, é sua verdadeira natureza, a natureza humana do Faraó que endureceu o coração. Deus não necessariamente rejeitou o homem que era Faraó, Deus decidiu em Sua soberana vontade retirar Sua misericórdia para que Ele mesmo, o Deus de Israel, fosse exaltado.  

Tudo que Deus faz, faz soberanamente, para Sua própria glória, inclusive, permitir que o ímpio viva na sua impiedade. Deus é glorificado em tudo e em todos, seja no justo sendo justificado seja no ímpio em sua impiedade ou como expressa Paulo, seja no vaso para honra seja no vaso para a desonra. 

Desse modo, é possível notar que, da perspectiva bíblica, não há uma tensão entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. O que há é a necessidade de sermos equilibrados. Não podemos culpar o Senhor Deus por todas as mazelas do mundo com o argumento da soberania, nem podemos nos colocar em alta conta a ponto de achar que somos responsáveis por tudo o que ocorre no mundo como se Deus tivesse dado corda em um relógio e estivesse somente observando de longe. Novamente, é sempre importante uma perspectiva equilibrada e de bom senso. 

Referências; 

Sproul, R. C. Deus controla tudo? São José dos Campos, Editora Fiel: 2013. Digital.  

Kleinman, Paul. Filosofia, tudo o que você precisa saber sobre. São Paulo, 2013. Físico 

Bueno, I. J. Liberdade e ética em Jean-Paul Sartre. Porto Alegre, 2007. Digital 

Aitken, J. K; Paget, J. C. A tradição judaico-grego na antiguidade o império Bizantino. Niterói, 2019. Físico. 

Bíblia Palavra-Chave. 

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