Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo. 
Vocês podem reconhecer o Espírito de Deus deste modo: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne procede de Deus; 
mas todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus. Esse é o espírito do anticristo, acerca do qual vocês ouviram que está vindo, e agora já está no mundo. 
Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo. 
Eles vêm do mundo. Por isso o que falam procede do mundo, e o mundo os ouve. 
Nós viemos de Deus, e todo aquele que conhece a Deus nos ouve; mas quem não vem de Deus não nos ouve. Dessa forma reconhecemos o Espírito da verdade e o espírito do erro.”. 

O MUNDO SEMPRE FOI UM LUGAR DE GUERRA DE COSMOVISÕES. Por isso, o Apóstolo nos aconselha, “(…) não creiam em qualquer espírito”. Em meio a tantas cosmovisões, as Fake News, se tornam um meio eficaz para manipular e atrair atenção do público e, assim, conseguir angariar seguidores. Perverter, manipular, deturpar a verdade sempre foi um mecanismo de guerra para conseguir apoio. Seja, entre as religiões, seja na política, ou até na vida cotidiana, afinal, somos animais políticos (Aristóteles). No primeiro século, o próprio Imperador Nero criou uma das mais conhecidas Fake News da história, atribuiu aos cristãos, que já sofriam perseguições esparsas, mas intensas, o incêndio em Roma. Incêndio que ele mesmo causou (Shelley). 

Em intensas perseguições políticas, os cristãos apostólicos ainda sofriam de problemas doutrinários dentro da igreja. Por isso, o Apóstolos João exorta-nos “(…) examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus”, pregadores gananciosos infiltraram-se na Igreja e mentiam descaradamente a respeito da natureza de Jesus. Os gnósticos não aceitam que Cristo tem o corpo físico de verdade. Dessa forma, o Apóstolo João nos apresenta uma referência para reconhecer a verdade, reconhecer o Espírito de Deus porque, afinal, “(…) muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” e, este referencial é o testemunho dos Apóstolos, e todo aquele que confessa que Jesus Cristo veio em carne está de acordo com a verdade.  

Mas, é curioso, que os próprios Apóstolos estavam sob exame. Quando Paulo (Atos 17) sai de Tessalônica, e vai a Beréia e passa a pregar na sinagoga, Lucas nos diz que os bereanos eram nobres, eles recebiam as palavras de Paulo e as conferia nas Escrituras todos os dias para ver se a mensagem do Apóstolo estava de acordo com as Escrituras Sagradas. Os bereanos estavam preocupados com a verdade. Não importava seus tradicionalismos, suas crenças pessoais ou seus achismos, eles ansiavam pela verdade, e, referência deles foram as Escrituras Sagradas. Por isso, muitos dos judeus, gregos, mulheres de alta classe e diversos homens, que ali estavam se converteram a Cristo. É importante ressaltar que eles não se converteram porque alguém simplesmente lhes entregou uma mensagem, os bereanos creram porque reconheceram a Verdade nas palavras de Paulo. 

O judaísmo associava o Espírito de Deus à profecia (Kenner), porém admitia a existência de falsos profetas. Não era incomum, judeus que aceitavam a existência de outros espíritos, inclusive, o ambiente da Ásia menor era farta em religiões que levavam ao êxtase. Assim, acreditava-se que estes falsos profetas eram tomados por outros espíritos. Até mesmo entre os judeus existiam aqueles que diziam ter revelações especiais da parte de Deus. 

É relevante lembrar que um falso profeta não é aquele que erra as profecias, que erra o futuro ou que até realiza milagres. As Escrituras entendem que o falso profeta é aquele que depois da profecia, mesmo quando a profecia acontece ou profeta consegue realizar algo miraculoso, este profeta chama aqueles que receberam a profecia para adorar outro deus e não o SENHOR que os resgatou da escravidão.  

Em Deuteronômio 13: 1-4 diz: “Se aparecer entre vocês um profeta ou alguém que faz predições por meio de sonhos e lhes anunciar um sinal miraculoso ou um prodígio, e se o sinal ou prodígio de que ele falou acontecer, e ele disser: “Vamos seguir outros deuses que vocês não conhecem e vamos adorá-los”, 
não dêem ouvidos às palavras daquele profeta ou sonhador. O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma. 
Sigam somente o Senhor, o seu Deus, e temam a ele somente. Cumpram os seus mandamentos e obedeçam-lhe; sirvam-no e apeguem-se a ele.” 

É notável que João não nega a “inspiração” desses falsos mestres, o que o Apóstolo João nega é que esta inspiração é de Deus. Mas, o problema não era novo e nem é nos dias atuais, reivindicar estar falando em nome de Deus, é comum, o próprio Apóstolo João apela para a sua autoridade apostólica “(…), mas quem não vêm de Deus não nos ouve”, mesmo Paulo sentiu a necessidade de usar sua autoridade apostólica (ICo 10:13), porém, esta autoridade, existe porque os próprios apóstolos estão sujeitos (reconhecem) o Espírito da Verdade, que é Cristo, como afirma João. E, o apóstolo Paulo ainda afirma que ninguém chama de Senhor a Jesus se não for pelo Espírito.  

Por isso, os apóstolos, pediam discernimento, pediam um certo “ceticismo sadio” não podemos aceitar qualquer “inspiração” que se diz de Deus, é necessário “examinar os espíritos para ver se eles procedem de Deus”. 

Os filósofos céticos, em última análise, não professam nenhuma doutrina já que preferem não adotar nenhuma opinião. Os céticos não aceitam nenhum sistema. O ceticismo é, resumidamente, uma atitude mental. O que chamam de “disposição de espírito” que compreende a impossibilidade de chegar a qualquer certeza. Como se as certezas ou as verdades não estivessem à disposição dos Homens ou não pudessem ser encontradas. Porém, não excluem, pelo menos à princípio, a eventualidade da descoberta. 

Os Céticos, podemos dizer, são aqueles que se abstém de formular opiniões dogmáticas em questões, como dizem “obscuras”. Os céticos negam, igualmente, a afirmação e a negação. Dessa forma, o ateísmo, por exemplo, é contrário ao pensamento cético. Não há qualquer afirmação ou negação, os céticos estão sempre inclinados à dúvida (aporetikós). 

Os céticos limitam-se a “Suspender o Juízo” e, para isso colocam suas dúvidas em formulas como: “não definir nada”, “não mais isso que aquilo”, “tudo é inapreensível”, etc. 

Porém, como é possível perceber, é impossível viver uma vida de dúvidas o tempo inteiro. É impossível viver uma vida prática com essa fórmula. O próprio Sexto Empírico (II e III d.C), filósofo Grego, reconhece que esta formula não deve ser tomada como categórica ou absoluta, mas como um “estado de espírito”. (Verdan) 

Assim, uma relação saudável do cristianismo com o ceticismo filosófico está na origem da palavra “céticos” que é “examinadores”, “investigadores”. 

O cristianismo, em filosofia, é o que chamamos de dogmática, acredita na verdade absoluta, reconhece que há princípios indubitáveis. Para o cristão a Verdade foi revelada, por isso é tão necessário ter zelo genuíno pela Verdade. A verdade deve repousar no espírito do cristão! E, por reconhecer a Verdade revelada que o método cético é útil. 

O ceticismo nos serve como método, não como uma disposição do espírito para suspensão do juízo, pelo contrário, nos serve como um mecanismo para nos desviar dos falsos mestres, dos falsos profetas, daqueles que se autoproclamam a voz de Deus, mas estão distantes das Escrituras Sagradas. 

É necessário “investigar”, “examinar” como faziam os bereanos, para que o verdadeiro evangelho puro e simples seja exaltado. Para que seitas, heresias e falsos profetas dentro da verdadeira igreja de Cristo sejam desmascarados. E, para isso, “investigar”, “examinar” é necessário zelo pela Escrituras Sagradas para que o simulacro da verdade, seja desencorajada à luz da Verdade. 

Era contra falsas ideais que o Apóstolo João lutava. Alguns judeus negavam que Jesus é o Cristo. Outros aderiram a doutrinas doceticas, negavam que Jesus tem um corpo físico, negando a humanidade de Jesus e, consequentemente, a morte e ressureição. Para João uma heresia fácil de ser combatida porque o Apóstolo esteve com o Senhor pessoalmente, viu com seus próprios olhos, ouviu Suas palavras, suas mãos tocaram o Verbo da vida (IJo 1:1). Outros entendiam que Jesus era um profeta, como João Batista. 

De qualquer forma, os sectaristas, estavam reivindicando inspiração divina, como fazem muitos grupos hoje. O mundo sempre foi uma guerra de cosmovisões. Dessa forma, como aqueles que o espírito repousa sobre a Verdade, temos obrigação moral de uma disposição cética quanto “autoridades” religiosas, como fizeram os bereanos. Eles não se impressionaram com a figura de Paulo e Silas, nem com discursos. Os bereanos não estavam preocupados nem com a própria tradição religiosa, nem com seu status social, eles estavam preocupados com a verdade! 

Será que, o que está sendo dito nos púlpitos, está de acordo com a Verdade revelada? Será que temos colocado os profetas à prova como nos aconselha o Apóstolo Paulo? (ICo 14:29) 

Sola Scripturacustou caro aos reformadores, perseguições, vida na clandestinidade, guerras, intolerância etc. Será que depois de 500 anos da reforma temos honrado esta tradição, somente as Escrituras? 

É triste ver gente metida em todo tipo de seita somente porque o sujeito “fala bonito” ou tem umas “profecias boas”. Não questiona nada, não se pergunta se é verdade o que está sendo dito. Se está de acordo com as Escrituras. Simplesmente acata.  

Às vezes, por preguiça, às vezes por ingenuidade mesmo, mas, de qualquer forma, está no engano. Às vezes, acredita que ser sincero em suas crenças é o suficiente quando, na verdade, ser sincero simplesmente o faz sinceramente errado. É necessário buscar a Verdade! Em uma sociedade cada vez mais pluralista a falta de senso de responsabilidade com a Verdades cristãs pode nos custar caro, como já vem acontecendo. VEJA: PLURALISMO E A IGREJA

Referências

Aristóteles, vê o homem como um ser que precisa de relacionamentos, por isso, tem na comunidade o ambiente para se desenvolver tanto em relacionamentos quanto em bens materiais, desta percepção, o filósofo Grego resume “o Homem é um Animal Político”. 

Shelley, Bruce L. História do Cristianismo. Rio de Janeiro, Thomas Nelson: 2020. Impresso. 

Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia, Novo Testamento. São Paulo, Vida Nova: 2017. Impresso. 

Verdan, André. O Ceticismo filosófico. Trad. Jaimer Conte. Florianópolis, Ed da UFSC: 1998. Impresso. 

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