Naquela mesma hora alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e lhe disseram: “Saia e vá embora daqui, pois Herodes quer matá-lo”. 
Ele respondeu: “Vão dizer àquela raposa: ‘Expulsarei demônios e curarei o povo hoje e amanhã, e no terceiro dia estarei pronto’. 
Mas, preciso prosseguir hoje, amanhã e depois de amanhã, pois certamente nenhum profeta deve morrer fora de Jerusalém! 
“Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedrejas os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram! 
Eis que a casa de vocês ficará deserta. Eu lhes digo que vocês não me verão mais até que digam: ‘Bendito o que vem em nome do Senhor’” 

Lucas 13: 31-35. 

Assim, como temos visto um mundo hostil ao cristianismo nas últimas semanas, na época em que Jesus caminhava sobre a Terra não era diferente. Lucas 13, inicia com um comentário de Jesus a respeito de Pilatos. As tropas de Pilatos haviam matado alguns homens peregrinos enquanto imolavam seus sacrifícios no Templo na Festa de Páscoa em Jerusalém.  

Da mesma forma que tantos outros imperadores, governadores, e líderes na História, Pilatos era sanguinário. (Marchal, 2009). A história é importante, porque Jesus está refutando uma crença judaica comum na época, e muito comum hoje em dia. A crença que a intensidade do sofrimento de alguém era ou é proporcional ao mal que ela comete. A realidade, da perspectiva divina, é todos são igualmente pecadores. Como o Apóstolo Paulo afirma: 

Não há nenhum justo, nem um sequer;”  

Romanos 3:10 

Dessa maneira, sabendo que todos são igualmente pecadores, Deus, como conta a parábola de Jesus, em seguida (Lucas 13: 6-9), misericordiosamente estava dando uma oportunidade para que todos se arrependessem, e passassem a gerar frutos de justiça. Na parábola, o Servo, pode representar Jesus. 

Muito da hostilidade no mundo, não somente aparece em forma de poder político, a hostilidade muitas vezes vem disfarçada de piedade religiosa. Logo em seguida à parábola de Jesus, alguns religiosos ficaram indignados com Jesus por curar uma mulher no sábado. Jesus os repreende chamando-os de hipócritas. Eles são capazes de ajudar um jumento com sede, mas são incapazes de sentir piedade de uma mulher que estava enferma há dezoito anos. 

Em seguida Jesus conta algumas parábolas a respeito do respeito do Reino a da Justiça, e segue caminhando pelas cidades em direção a Jerusalém. 

Enquanto Jesus caminhava, alguns Fariseus, não fica claro se amigáveis ou mancomunados com o Governante Herodes Antipas, alerta a Jesus que o Tetrarca desejava matá-lo. 

Herodes Antipas tinha autoridade sobre a Galileia e Pereia, e muito mais influência do que a aristocracia sacerdotal exercia em Jerusalém. Herodes já havia matado João Batista e poderia fazer o mesmo com Jesus, assim, as ameaças era para que Jesus deixasse as jurisdições de Antipas.  

Em meio a estes alertas, bem intencionados ou não, Jesus, a caminho de Jerusalém, relembra os profetas martirizados em Jerusalém, como já havia sido mencionado:  

“Pelo que, esta geração será considerada responsável pelo sangue de todos os profetas, derramado desde o princípio do mundo: 
desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o santuário. Sim, eu lhes digo, esta geração será considerada responsável por tudo isso.”  

Lucas 11: 50-51. 

Este Zacarias citado por Jesus é o que havia sido morto pelo povo com o consentimento do Rei Joaz 2 Crônicas 24: 20-22

Alguns profetas no Antigo Testamento haviam sido martirizados em Jerusalém, e na tradição judaica inúmeros outros profetas eram reconhecidos como martirizados em Jerusalém. Aqui, Jesus está se referindo à esta tradição. Isto é, Jesus está indo em direção à Jerusalém, saindo da Jurisdição de Herodes Antipas, mas sabe que morrerá em breve, com ou sem ajuda de Herodes. 

Jesus, usa a cidade de Jerusalém para chamar a atenção a respeito da perseguição aos profetas, mesmo reconhecendo que havia outros lugares de perseguição. Porém com certeza Jerusalém foi um centro de perseguição no antigo território de Judá. E, para qualquer judeu, mesmo sabendo dos martírios realizados em Jerusalém, a cidade era o centro da devoção Judaica. Exceto para os essênios.  

SABENDO DE TUDO ISSO, NO VERSÍCULO 34, Jesus faz uma forte declaração: “Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!”. No Antigo Testamento, Deus é retratado como uma águia que paira sob aninhada Dt 32: 11; Ex 19:4. E, poeticamente também como quem está abrigando Israel debaixo de suas asas Salmos 17: 8; 36:7; 57:1; 61:4; 63:7 91:4. Ao mesmo tempo, representa a desolação dos inimigos Jr 49:22. A tradição Judaica, ainda afirmava que o povo de Deus se abrigava dentro das asas do Senhor, e, quando o Judeu trazia um gentio a Deus era usada a expressão “Trazidos para debaixo da presença do Senhor”. Assim, unindo a tradição judaica e as Escrituras, Jesus aplica a si mesmo esta metáfora, demonstrando Sua divindade, Seu Amor, Sua vontade de reunir Seu povo para junto Dele e, claro, profeticamente Sua morte em Jerusalém. 

No versículo 35, a “desolação da casa” é possivelmente a destruição do Templo no ano 70 d.C. Jesus está citando o Salmo 118:26, “Bendito é o que vem em nome do Senhor”, este salmo era cantado na época de Páscoa e é o mesmo salmo que a multidão canta ao Senhor quando entra na cidade de Jerusalém Lucas 19:38

Como vimos, Jesus saiu da cidade da Galileia e em direção à Jerusalém, isto é, caminhou por entre as cidades por cerca de 126 km. Dessa forma, é possível pensar no ministério de Jesus como um Ministério Urbano. Neste sentido, vemos Jesus clamando pela cidade de Jerusalém enquanto caminha para entregar Sua Vida em favor dos pecadores. 

O trecho de Lucas 13: 34:35, chama a atenção porque Jesus direciona sua missão à cidade de Jerusalém. Ou seja, Jesus está intimamente envolvido com a cidade. Sua missão é entregar-se por amor ao mundo inteiro, João 3:16, mas nesse momento, Cristo está direcionando a um espaço físico limitado. Isto é, um espaço físico que qualquer pessoa pode alcançar. Como vimos em Jonas, perspectiva Missionária, uma única pessoa pode caminhar pela cidade e pregar o evangelho da salvação. 

Porém, diferente de Nínive, apesar da repreensão à Jerusalém há também uma ternura salvífica em Jesus “(…) quantas vezes?”. 

Mesmo que Jerusalém, tenha sido lugar de morte dos profetas, Deus não se afastou de Seu povo, pelo contrário, agora, enviou Seu próprio Filho à cidade, para que todo aquele que Nele crer não morra, mas tenha vida eterna, através da Sua morte e ressureição. Veja também a parábola dos semeadores maus, Lucas 20: 9-18; Mateus 21:23-27; Marcos 11:27-33.  

O Ministério de Jesus pode ser visto de uma perspectiva de um relacionamento íntimo entre Cristo e Jerusalém (Robson, 2016). É como o clamor de um missionário urbano, alguém que leva as Boas Novas. 

Isto é, como vimos, Jesus tinha um profundo conhecimento das Escrituras, e, também, um profundo conhecimento da tradição, e cultura de Seu povo. Conhecia por onde andava e quem poderia encontrar no caminho. Desde as camadas mais pobres até as mais ricas, dos políticos influentes e cobradores de impostos, sacerdotes do judaísmo ou de outras religiões. Jesus, é o perfeito missionário, conhecimento teológico aplicado na prática da vida cotidiana. Era conhecimento teológico contextualizado à realidade que o cercava. 

É necessário contexto Bíblico, contexto histórico unido a necessidade de relacionamentos práticos. Ou seja, uma leitura do evangelho e uma leitura do mundo contemporâneo para uma contextualização correta, uma teologia saudável para um mundo melhor.  

Este ensinamento que vemos na relação entre Cristo e Jerusalém, talvez possa ser expressado pelo fim do Templo em 70 a.C. porque o cristianismo não é mera religiosidade, como desejava os oponentes de Cristo, os Fariseus. A questão não é o sábado, é sobre a verdadeira piedade, a manifestação do amor ao próximo. É sobre alcançar os que necessitam de ajuda, aqueles que sofrem em um mundo caído, cheio de pecado e marcado pelo mal promovido por satanás. 

Cristo mostra aos mestres da lei, através da cura de uma mulher no sábado, para onde as Escrituras realmente apontam. Não são regrinhas de “pode ou não pode”. Cristo está falando para Jerusalém física, mas está apontando para a Jerusalém Espiritual. Está dizendo que a verdadeira Jerusalém, a Jerusalém que ele está preparando é eterna, Apocalipse 21: 2-4.  

E lá não terá pranto, dor nem morte. Na Jerusalém santa, o Tabernáculo, o próprio Cristo, habitará conosco para sempre. É está Jerusalém que o Cristão deve almejar com todas suas forças, seu entendimento, com todo seu coração. Mas, enquanto almeja a Nova Jerusalém, trabalha incansavelmente sendo sal, para que o mundo não apodreça e sendo luz para todos quanto possível alcance a salvação que há em Cristo Jesus o Senhor. 

Referências: 

Marchall, I. Howard. Comentário Bíblico Vida Nova. D. A. Carson et.al. São Paulo: Vida Nova, 2017. Impresso. 

Keener, S. Carig. Comentário Histórico-cultural da Bíblia – NovoTestamento. São Paulo: Vida Nova, 2018. Impresso. 

Robson R. S. Missão Urbana, fundamentos, desafios e implicações. Columbia, SC: Amazon, 2016. Digital.    

Imagens: 

  1. Palestina sob o Domínio dos Herodes”. Mapa retirado do Blog Mapas Bíblicos: <http://mapasbiblicos.blogspot.com/2012/07/a-palestina-no-tempo-de-jesus.html>. Acesso; 17/08/2021. 

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