Sabendo, claro, que falar em “Livre Arbítrio” é redundância, porque o dicionário define arbítrio como: “decisões que depende apenas da vontade”. (dicionário). Mas mesmo assim, vou usar a expressar mais conhecida tanto na filosofia quanto na teologia. 

Enfim, Livre Arbítrio não é uma “coisa”, por assim dizer. Não é uma substância ou essência que faz parte do ser humano. Dizer que uma pessoa tem livre arbítrio não o mesmo que dizer que uma pessoa tem um corpo, por exemplo, braços pernas, etc. 

A palavra arbítrio envolve um conceito de desejo, intensão, decisão. Isto é, uma pessoa tem livre-arbítrio para intencionar, desejar, decidir sobre algo ou alguma coisa. E, estas intencionalidades, desejo e decisões o levará, inevitavelmente, a propósitos e experiências. 

Comparativamente, máquinas não conseguem desejar nada. Por mais sofisticada que seja sua programação, uma máquina simplesmente é programada para fazer, sem pensar ou raciocinar as consequências de seu “fazer”. Ou seja, não há liberdade em uma máquina. 

Por mais que nos últimos tempos tenhamos antropomorfizado máquinas, com ideias cinematográficas de inteligências artificiais tomando o controle das sociedades humanas, como em “Eu, Robô” Livro de que virou filme em com Will Smith, esta realidade está muito distante – e, particularmente, não acredito que um dia se torne realidade, mas é interessante pensar enquanto literatura, arte, cinema, porém é meramente uma abstração. Em suma, máquinas não têm experiência de vontade. 

Um ser humano pode desejar escrever um livro, um computador nunca irá desejar que seu dono abra o aplicativo para escrever este livro. Um ser humano deseja, planeja, decide fazer alguma coisa, uma máquina, simplesmente executa um comando.  

Um computador, por mais complexo que seja, jamais existirá nele um objetivo, um propósito ou a experiência da vontade. Máquinas não desenvolvem relacionamentos seu dono. Máquinas servem ao objetivo de quem realmente pensa. Decisões são exclusividade humana segundo seus propósitos e objetivos contidos em sua consciência. 

Assim, quando negamos o livre arbítrio humano, estamos negando a nós mesmos. Pois o arbítrio envolve, como já dito, intenções, desejos, decisões, propósitos, etc. Isto é, o Livre-Arbítrio é um exercício de escolhas e decisões. (Picirilli, 2017) 

Claro, aqui estou buscando definições objetivas e didáticas. Reconhecendo que há divisões e sub divisões tanto para compatibilismo como para incompatibilismo o que não cabe aqui, mas pode ser explorado em outro momento. 

Mas, a questão é, quando falamos de Livre Arbítrio, falamos de responsabilidade humana. E, de fato, os seres humanos sentem-se responsáveis por suas ações no mundo. Então, se as ações das pessoas são determinadas – seja por eventos aleatórios, como na filosofia, seja determinada por Deus, como no teísmo, desde antes de nascerem, fica a pergunta: “Por que seres humanos sentem-se responsáveis por suas ações no mundo?” 

Se, todas as ações humanas no mundo, são aleatórias e ao acaso, para os filósofos, ou determinadas como dizem os teístas desta linha, os seres humanos não possuem qualquer responsabilidade quanto a suas ações. Isto é, se humanos não tem qualquer vontade, não tem desejos e propósitos, em um mundo onde tudo está determinado – os seres humanos são pequenas máquinas.  

O cinema e a literatura sempre exploram estas ideias, é interessante ver “Matrix”, por exemplo, filme dirigido por Lily e Lana Wachowski, em 1999, que explora bem o conceito de destino e livre-arbítrio no personagem Neo.  

Mas, enquanto filmes e literatura, são ótimos para nos levar a reflexões, a realidade é que os seres humanos se sentem responsáveis por suas ações no mundo. E, ao mesmo tempo, este senso de responsabilidade é causado dentro do ser humano. 

E, um pré-requisito para o livre arbítrio é a responsabilidade. E, o pré-requisito para a responsabilidade moral é o senso de responsabilidade. Isto é, uma pessoa não precisa de responsabilidade moral para ter senso de responsabilidade, mas precisa de senso de responsabilidade para ter responsabilidade moral (Kleinman, 2014). 

Mas, realmente, falando em cristianismo, o livre arbítrio, traz difíceis implicações, como “soberania de Deus”, a “Queda”, e tantos outros temas – que já foram e ainda serão explorados.  

Porém, aqui, é uma breve definição como um ponto de partida para outras discussões dentro e, claro, fora do cristianismo. 

Para concluir, “Livre-Arbítrio” é a forma como dizermos que uma pessoa é capaz de tomar decisões. Que uma pessoa pode escolher entre duas ou mais alternativas quando deseja alguma coisa com algum grau de entendimento, ou seja, quando a alternativa requer escolhas conscientes (Picirilli, 2017). É a capacidade de escolher entre múltiplas alternativas. 

Isto é, uma escolha sem qualquer coerção. Sem qualquer determinismo ou compatibilismo, que, em última análise, é determinismo mais “leve”.  

Para fazer escolhas é necessário ter entendimento de suas escolhas e ser livre, do contrário é, simplesmente, uma máquina randômica sem qualquer racionalidade e fundamentos. 

Enfim, podemos dizer que a liberdade é um atributo da mente, tem um aspecto interior, e não existe fora dela.  

Novamente, esta é uma definição de partida, sem implicações para o pensamento cristão. Pois, Deus pode determinar as possibilidades, mas, escolheu não determinar as escolhas humanas. 

Parafraseando Sartre, de forma um pouco mais cristã, você escolhe o que fazer com aquilo que Deus determinou. 

Referências; 

Picirilli, R. E. Free Will Revisited. Eugene, Wipf and Stock: 2017. Digital 

Kleinman. P. Filosofia. Tudo que você precisa saber sobre. São Paulo, Editora Gente, 2014. Impresso. 

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