Na teologia cristã clássico a ideia de Depravação Total é ponto pacífico. Os seres humanos, após a Queda se tornaram depravados, fato!

A questão é se a Depravação Total desabilitou o Livre-Arbítrio humano ou não. Lutero, Calvino e outros reformadores afirmam que sim. Como vimos no episódio “Livre-Arbítrio e a Presciência”, Lutero e Calvino entre outros teólogos como Jonathan Edwards (1703 – 1758), por exemplo, utilizaram a Presciência como base para suas argumentações.

Em síntese, todos concordam que a Depravação Total é ponto de ignição. A Depravação é Total e Real.

Erasmo de Roterdã (1466 – 1536), em seu embate com Lutero concorda que, o Livre-Arbítrio, é totalmente ineficiente sem a Graça de Deus. Lutero responde que isso é o mesmo que afirmar que a liberdade não é livre. Para o reformador, os seres humanos somente estão capacitados para o Mal, por isso, não podem voltarem à Deus.

Então, isso implica que, sem a Graça de Deus, os seres humanos não são livres, e permanecem como Escravos do pecado e de Satanás. Não há poder no escravo para libertar-se e seguir em direção a Deus. Lutero ainda considera que, mesmo que Satanás não subjugasse os seres humanos, o pecado ainda o desabitaria para seguir em direção ao Bem.

Isto é, uma das marcas da corrupção da humanidade caída é sua total inabilidade para a compreensão das coisas espirituais, como indica o Apostolo Paulo em I Co 2:9-16.

Dessa forma, para Lutero, ter liberdade é ter poder de compreensão e, assim, decidir mover-se em direção à Deus. Mas, isso, para o reformador é absurdo, como alguém pode compreender o incompreensível por si mesmo?

Diante disso, Erasmo de Roterdã, argumenta que a existência de Mandamentos indica que há nos seres humanos a habilidade de obedecer. É um argumento válido, mas deve ser usado com cautela, como já afirmei em “Livre-Arbítrio, Perspectiva Bíblica – Implicações Lógicas”.

Mas, diante do argumento de Erasmo, Lutero diz que isso não é verdade porque a Lei é meramente a demonstração da inabilidade humana para obedecer, então, cita Romanos 3:20. Isto é, a Lei nos foi dada para justamente reconhecer a inabilidade humana.

O que isto significa para Lutero, seguido por Calvino e outros reformadores é que os seres humanos somente são “livres” para escolher o mal. Por isso, Lutero e Calvino, preferem não caracterizar como liberdade. Assim, os reformadores concordam que, sem o Espírito Santo, as pessoas escolhem o mal espontaneamente e voluntariamente.

Em um quadro como este, com a Depravação Total instalada e uma humanidade subjugada pelo Pecado e por Satanás, o que poderia agir sobre as pessoas para que elas pudessem voltar a Deus?

Os reformadores foram simples e objetivos, a GRAÇA!

Toda a questão é razoavelmente fácil, um escravo não tem poder para simplesmente abandonar suas correntes e seguir em direção a sua liberdade em Cristo. Assim, fica evidente que é necessário que exista uma ação divina anterior em direção ao escravo libertando-o do Pecado e das forças de Satanás habilitando-o para reconhecer a Verdade e retornar a Deus. Por isso, sem a Graça, toda as escolhas as possíveis dos seres humanos estão em direção oposta à Deus.

Lutero, assim, faz uma clara distinção entre estar na Graça e estar fora da Graça.

Neste ponto, Erasmo continua sustentando sua posição que é possível para os seres humanos mover-se em direção a Deus sem a total ajuda de Deus, mas não exclui a necessidade da Graça.

Em suma, para Lutero, não existe poder sem a Graça de Deus, por isso não há liberdade nos seres humanos. Enquanto Erasmo acreditava que existe um certo poder sem a ajuda de Deus. Isto é, existe um poder em si mesmo que pode ser aplicado para o Bem.

Calvino, segue Lutero, afirmando que a natureza humana está profundamente corrompida por causa da Queda que é impossível que os seres humanos sejam livres para retornarem a Deus. Segundo Calvino, os seres humanos nascem com a perversidade inerente da corrupção. Isto é, já nascem escravizadas por causa do pecado de Adão. Adão foi livre, mas perdeu sua liberdade na desobediência, como está em Romanos 7:18-25.

Ou seja, Calvino insiste na natureza pecaminosa que somente pode escolher o mal e que não há poder nos seres humanos para voltarem livremente para Deus. Assim, como Lutero, Calvino coloca ênfase na Queda e no Pecado de Original em Adão.

Em resumo, depois da Queda a Liberdade foi perdida e os seres humanos estão subjugados pelo pecado de Adão e Eva. Isto é, para os reformadores, os Homens são definidos como “antes e depois” da Queda.

Mas, esta definição leva a outro problema, se o ser humano foi feito bom e sem qualquer pecado como ele escolheu desobedecer?

Calvino, tão pouco Lutero, chegaram a esta questão, mas os calvinistas sim. Jonathan Edwards (1703 – 1758), por exemplo, diz, basicamente que a Queda estava incorporada ao plano de Deus, que trabalhou todas as coisas, o Bem e o Mal.

Enfim, Calvino reafirma que sem a Graça nada podemos fazer e que, a Graça, não meramente ajuda ou é uma assistência, a Graça é regeneração. Para Calvino a Graça é mais que um trabalho de formação, então, necessariamente a resposta era a obediência. Calvino acreditava que assim resguardava a soberania de Deus e centrava toda obra no Espírito Santo.

Tendo estas concepções em mente é possível fazer algumas considerações sobre Depravação Total e Graça. Que podemos elaborar em 3 questões: (1) Os seres Humanos é uma criatura totalmente depravada? (2) Se sim, isto significa que o Livre-Arbítrio foi perdido? (3) Ser alcançado pela Graça significa que não há a possibilidade de aceitar ou rejeitar a Graça?

Como já dito, a Depravação Total é ponto pacífico. Não é necessário discordar de qualquer ponto de Lutero e Calvino. É fato que toda raça humana está em corrupção em sua integralidade, ou seja, Material (corpo) e imaterial (alma e espírito). Isto é, corrompido e escravizado pelo pecado e por Satanás. E, principalmente que a conversão (o retorno à Deus) é impossível sem o trabalho gracioso de Senhor. A Depravação sim é Universal! Sendo Adão cabeça de toda humanidade estendeu seu pecado a todos, junto as ofensas de Adão veio as penalidades, a morte e Depravação (Romanos 5:12-19).

Muitos de nós provavelmente já nos perguntamos se é justo receber as punições de Adão, não é o assunto aqui se é justo ou não, aqui o pressuposto cristão é que de fato recebemos a punição. Mas, chamo a atenção para o assunto porque há seitas judaicas assim como pseudocristãs, como os pelagianos, por exemplo, que rejeitam a ideia de uma corrupção total. E, claro, é necessário fazer algumas definições para o assunto ser melhor compreendido.

Em suma, os intérpretes das escrituras, juntamente com aqueles que estudam a Condição Humana, filósofos moralistas, reconhecem a Depravação Total. Mas, depravação total não significa que os seres humanos são tão maus quanto poderia ser ou quanto é capaz de ser. Significa, basicamente que todas as áreas da vida humana foram afetadas pelo Pecado Original, seu corpo, mente, desejos, e, claro, liberdade. Isto é, o seu discernimento das coisas espirituais foi corrompido e, o homem passou a ser controlado por suas paixões, o que o leva a fazer escolhas com inclinações contrárias a vontade de Deus. A tendência humana é o afastamento não a aproximação.

Mas, ao mesmo tempo, não significa que não há nada de nobre nos seres humanos depois da Queda. É notável, por exemplo, que os grandes personagens da história na literatura, são personagens com conflitos entre o bem e o mal. Como se o interior do Homem estive em constante instabilidade. Os seres humanos são uma mistura de grandes realizações e iníquas ambições.

Grandes personagens, pelo menos os personagens que mais gostamos tem esta natureza dupla. São capazes de amar profundamente e, ao mesmo tempo, são capazes de destruir com perversidade. Como esquecer de Daenerys Targaryen, em Game of Throunes, ela havia libertado inúmeros escravos, este é a realização do bem, mas foi tomada por um profundo ódio destrutivo quando a rainha Cersei Lannister ordena a executar sua amiga e conselheira Missandei. Não quero continuar a dar spoiler, mas a ideia fica clara, há um conflito constante no interior humano e, este conflito o deixa cego, surdo, incapaz de reconhecer sua dependência de Deus. Os seres humanos são uma contradição ambulante e uma confusão total.

Enfim, para concluir, mesmo depois da Queda os seres humanos ainda são capazes de grandes realizações, que leva o Bem, ao mesmo tempo que caminham em direção oposto de seu Criador. Isto quer dizer, o homem ama mais a si mesmo do que Aquele que o criou. Ama seus pecados mais do que é capaz de amar Aquele que pode o libertar. Estamos cegos, surdos e mortos em nossos pecados, e, nessa condição, realmente, é impossível um ato de liberdade em direção a Deus.

Assim, está escrito em João 6: 44Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia.

É claramente necessário um trabalho do Deus Trino em nossa direção, do contrário não podemos fazer absolutamente nada (João 15:5).

Referências:

Couto, Vinícius. Depravação Total. Editora Reflexão: 2021. Físico

Picirilli, R.E. Free Will Revisited. Eugene, Wipf and Stock: 2007. Digital.

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