A teologia cristã tradicional entende que Deus é presciente, isto é, tem conhecimento do futuro de forma clara e inequívoca. E, com isso em mente, alguns teólogos arriscaram concluir que a presciência de Deus, de alguma forma impede o livre-arbítrio humano. Mas será que é verdade? Ou será que é mais uma inferência?

Na realidade, o argumento que nega o livre-Arbítrio em detrimento da verdade da presciência de Deus, é simples e, aparentemente, óbvio. Se Deus Sabe que uma certa escolha será feita e nada pode ser feito para mudar tal escolha é porque o próprio Deus colocou tal escolha lá. Isto é, Deus determinou a escolha.

Mas este argumento é frágil, e denigre a imagem de um Deus totalmente bom. E para não cair neste extremismo, os teístas que negam o livre-Arbítrio, precisaram reformular o pensamento e redefinir filosoficamente o livre-arbítrio transformando-o em livre-agência – que é conhecido em filosofia como compatibilismo. Mas, como já afirmei em Livre-arbítrio – Breve Definição, o compatibilismo é, em última análise, um determinismo mais “leve”.

Por outro lado, existem aqueles teístas que colocam tamanha ênfase sobre o livre-arbítrio que acabam negando a presciência de Deus. Às vezes, totalmente, às vezes, parcialmente.

Nos dois casos, sejam os extremistas que negam a liberdade humana e caem no determinismo pagão, sejam os extremistas do livre-arbítrio, que negam a presciência de Deus, caindo em heresias. Os dois casos estão completamente alheios a realidade Bíblica. Como já coloquei em Mentalidade do Filósofo Cristão, os prolegômenos devem sempre partir da revelação cristã – a bíblia. Dessa forma, é necessário equilíbrio, e equilíbrio se alcança reconhecendo as Doutrinas Cristãs enquanto se avança em argumentos filosóficos saudáveis.

Então, a pergunta é, se reconhecemos que Deus conhece todas as coisas minunciosamente e infalivelmente, incluindo as escolhas morais dos seres humanos, como podemos conciliar a Presciência de Deus e a Liberdade Humana?

Bom, basicamente o argumento daqueles que negam a liberdade humana é que se Deus sabe de antemão exatamente tudo o que irá acontecer é porque ele mesmo preordenou. Isto é, pré-saber todas as coisas é o mesmo que preordenar todas as coisas. Este argumento associa presciência e determinação, com o intuito de resguardar a soberania de Deus, porém como já coloquei em “Entre a Providência e a Responsabilidade Humana?” as Escrituras Sagradas não relatam qualquer tensão entre estas duas realidades Bíblicas.

 Outro argumento, dentro da mesma perspectiva, isto é, faz uma ponte entre a pré-saber e preordenar, porém, de forma mais racionalista que teológica é, Deus sabe todo o ato de escolha humana o que teoricamente elimina a possibilidade de liberdade.

É formulado assim: Deus conhece todas as coisas, necessariamente tudo o que Deus conhece existe, então tudo que Deus conhece de antemão deve necessariamente existir, pois para Deus não há é contingente. Isto é, nada pode ser e não ser ao mesmo tempo.

Algumas respostas a estes argumentos. Verdadeiramente a presciência é o conhecimento do futuro e, claro, é impossível uma pessoa fazer qualquer escolha que Deus sabe que ela não fará ou fazer qualquer escolha desconhecida para Deus.

Então, o único elemento de discordância é sobre a determinação ou a preordenação destas escolhas.

Desta forma, a questão é razoavelmente simples, o fato de Deus conhecer o futuro anula o futuro? Isto é, os seres humanos não tem capacidade de escolher nenhum outro caminho que Deus conhece? Não estou me referindo a inabilidade humana causada pela Depravação Total ou as necessárias determinações de Deus – isto, quem sabe pode ficar para outro dia.

Aqui a questão é mais simples, o conhecimento de Deus de um fato futuro anularia o que, de alguma forma, poderia ser um fato contrário? Isto é, Deus conhecer o futuro o torna necessariamente o autor deste fato?

Claro que nada poderia mudar o que Deus sabe. O que é não pode se tornar o que não é. Contingência somente se apresenta na esfera humana. Deus nunca será pego de surpresa.

Mas, da mesma forma que Deus conhece todo o futuro Ele conhece todo o passado.

Então, no passado ou no futuro, todas as coisas conhecidas e, claro desconhecidas pelos seres humanos, que aconteceram ou irão acontecer, como guerras, mortes injustas, estupros, desigualdades e maldades de todo o tipo, são obras de Deus? Isto é, todo o mal no mundo foi e será causado por Deus?

Este é um desenvolvimento lógico claramente incompatível com a autorrevelação de Deus nas Escrituras Sagradas. As Escrituras nos revela que Deus é Totalmente bom e não há Nele nem sombra de maldade.

Ou seja, fazer a correlação entre presciência e preordenação, elimina a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, pois preordenar seria a própria vontade de Deus em ação. Mas a Bíblia é clara quando mostra que nem sempre a vontade de Deus é feita. Veja 1 Timóteo 2: 3-4 está escrito:

Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.”

Ou seja, Deus deseja que TODOS sejam salvos, porém Ele já sabe que isto não acontecerá. Deus em Cristo chama TODOS ao arrependimento, mas sabe que nem todos se arrependerão dos seus pecados.

Outro exemplo está no Antigo Testamento, Ezequiel 18:23 está escrito:

“Teria eu algum prazer na morte do ímpio? palavra do Soberano Senhor. Pelo contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver?”

Aqui há um claro chamado a responsabilidade individual o qual quando pervertida Deus claramente não tem qualquer prazer, pelo contrário, a vontade do Senhor é boa, perfeita e agradável. Seu desejo é que o Homem volte para o caminho da Verdade.

Enfim, da mesma forma que não há base Bíblica para afirmar que a soberania de Deus afeta de alguma forma a liberdade humana. Não há qualquer evidência que aponta que a presciência de Deus elimina o livre-arbítrio. Pois, Deus pré-saber todas as nossas escolhas futuras não significa que Ele nos obrigou fazê-las. Como já venho argumento em outros episódios, Deus Determinou as possibilidades, mas não escolhas humanas.

Referências: 

Picirilli, R. E. Free Will Revisited. Eugene, Wipf and Stock: 2017. Digital 

Picirilli, R. E. Free Will Revisited. Eugene, Wipf and Stock: 2017. Digital 

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