Todo cristão concorda que, quando queremos abordar qualquer tema, o mais importante da exposição do assunto é que seja de uma perspectiva Bíblica. Assim, com o Livre-arbítrio não seria diferente. 

Mesmo com uma enorme quantidade de argumentos filosóficos e uma infinidade de sistemas teológicos, o que realmente determina a validade de uma posição são seus os prolegômenos, isto é, as noções básicas, os princípios, os elementos, para o estudo de qualquer assunto, em nosso caso, claro, as Escrituras Sagradas. Afinal, a revelação nas Escrituras Sagradas deve ser os prolegômenos de todo cristão. VEJA o Episódio: Mentalidade do Filósofo Cristão

O problema, no caso do Livre-arbítrio, é que, a Bíblia, não responde à questão diretamente se o ser humano tem a capacidade de livre escolha – principalmente porque, as Escrituras Sagradas, não tem o objetivo de responder esta questão. 

Dessa forma, as respostas Bíblica, a respeito do livre-arbítrio, e outros temas que a Bíblia não responde diretamente, são resultantes de outras implicações que já foram respondidas e que, naturalmente, apontam para a verdade.  

Por isso, quando queremos abordar qualquer tema que a Bíblia não responde diretamente, é necessária uma construção lógica, isto é, uma visita a outros temas e passagens que a pontam para a verdade que desejamos encontrar. 

Então, como exemplos, há duas construções lógicas, a respeito do livre-arbítrio. (1) A Bíblia expões que a salvação é um trabalho exclusivamente de Deus e que, o ser humano, não têm qualquer contribuição. Dessa forma, o exercício de escolha estaria entre o receber e o rejeitar a obra de Cristo. Então, segundo alguns teólogos, receber a obra de Cristo, seria uma contribuição, concluindo, dessa maneira, que os seres humanos não tem livre-arbítrio. 

Porém, há outro exemplo que está na contramão do primeiro. (2) A Bíblia ensina que Jesus morreu por todos e que todos são convidados a recebê-lo e serem salvos e, aqueles que se perderem são responsáveis pela sua própria perdição.  

Então, para seres humanos serem responsáveis por sua própria perdição eles devem ter liberdade de escolher aceitar ou rejeitar o chamado de Deus na obra de Cristo Jesus. Assim, para outros teólogos, os seres humanos tem sim liberdade de escolha. (Picirilli, 2017) 

Não é necessário ir mais longe do que estes dois exemplos para demonstrar as dificuldades do tema livre-arbítrio de uma perspectiva Bíblica. Porém, como já dito, os temas expostos como exemplos não falam sobre livre-arbítrio. São argumentos para outras importantes doutrinas cristãs que precisamos visitar para analisar e reconhecer se apontam para a verdade que desejamos reconhecer. 

Assim, para falarmos de livre-arbítrio, é necessário antes pressupor se existe ou não liberdade de escolha no ser humano.  

Então, se pressupormos que não há liberdade de escolha, caímos em determinadas implicações – que deixarei para o final – e, se pressupormos que não existe livre-arbítrio, devemos responder “Por que não existe?”, mas se pressupormos que existe livre-arbítrio no ser humano, cairemos em outras implicações, “como funciona esta liberdade?”. Isto é, dependendo da pressuposição, além das implicações Bíblicas são necessárias respostas a perguntas distintas. Se não existe por que não existe? Se existe, como existe (funciona)? 

Bom, se partimos do pressuposto que existe liberdade de escolha nos seres humanos, a pergunta que deve ser respondida é “Como?” 

A resposta é que as Escrituras Sagradas pressupõem uma interação, um relacionamento entre o Deus Trino e os seres humanos, e, esse relacionamento e interação, exige liberdade, escolhas, decisões e objetivos.  

Em outras palavras, a Bíblia retrata uma história de liberdade como pré-requisito para a responsabilidade da fé.  

Seja no Antigo testamento onde Deus libertou seu povo do cativeiro do Egito (Êxodo 6) para viver responsavelmente a liberdade sob a lei de um Deus justo, seja no Novo Testamento onde Cristo nos libertou para a liberdade (Gálatas 5) com responsabilidade moral. 

De certa forma, é, relativamente, fácil citar sem qualquer critério textos sobre a soberania divina, dizer que Deus tem o controle de todas as coisas, que seres humanos são miseráveis pecadores e que todo crédito da salvação é de Deus. É fácil, porque, realmente, todas essas coisas são verdadeiras.  

Porém, como já demonstrei em “Entre a Providência e a Responsabilidade Humana”, não há qualquer tensão nas Escrituras Sagradas que apontam que a liberdade humana fere de alguma maneira a Soberania de Deus. Há inúmeros textos que corroboram para isto. Por isso, é necessária uma leitura bíblica que compreende as Escrituras como um todo. Pois, a Bíblia aponta tanto para soberania de Deus quanto para responsabilidade humana. O importante é compreender corretamente os motivos dos apontamentos bíblicos e seus significados para nós, do contrário, cairemos em polarizações e extremismo e, consequentemente em um humanismo que nega a coexistência dessas duas realidades. 

Não é possível apontar todos os textos a respeito da soberania de Deus, nem sobre a responsabilidade humana. Os temas já foram tratados anteriormente. Mas, a respeito do livre-arbítrio, podemos apontar um bom argumento Gênesis 2: 16-17

E o Senhor Deus ordenou ao homem:  
“Coma livremente de qualquer árvore do jardim, 
mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal,  
porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá” 

Gênesis 2:16-17. 

Certamente, Gênesis 2: 16-17, apontam para a liberdade humana de escolher entre o bem e o mal, que, representativamente, no relato bíblico, significa independência de Deus (Wenham, 2009). Isto é, Deus permitiu que Adão, fizesse uma escolha entre ser dependente de Sua Graça ou viver de forma independente, ou seja, em seus próprios valores. 

Por outro lado, acho compreensível quando questionam o apontamento deste texto dizendo que os seres humanos foram feitos livres, mas esta não é a realidade depois da queda. 

Querem dizer, o livre-arbítrio foi afetado pela queda! Claro, não há qualquer objeção a este pensamento. A Queda afetou todos os aspectos da vida humana! Isto é, a DOUTRINA DA DEPRAVAÇÃO TOTAL. Porém, o texto é bastante claro, o ser humano foi desenhado com o livre-arbítrio.  

Logo, a questão mais importante é se o livre-arbítrio ainda existe nos seres humanos e, se existe, quanto do livre-arbítrio foi afetado na Queda? 

Bom, a doutrina da Depravação Total diz que todas as áreas da vida humana foram afetadas pela Queda, mas, ao mesmo tempo, não é possível dizer que alguma coisa foi eliminada depois da Queda.  

Principalmente, porque há inúmeros outros textos bíblicos que apontam para algum nível de responsabilidade humana.  

Êxodo, como já citado, aponta para responsabilidade de manter-se na Lei, e Gálatas, também já citado, aponta para a responsabilidade de manter-se em liberdade. 

Então, de qualquer forma, o que Gênesis 2 apresenta é que os seres humanos foram feitos livres e que esta liberdade mal utilizada desencadeou rebelião contra o Criador.  

E, esta rebelião, teve e têm consequências. Isto é, como já vimos em “Livre-Arbítrio – Breve Definição”, escolhas e decisões levam inevitavelmente a experiências e, essas experiências, podem ser boas ou más. 

Muitas passagens bíblicas exibem comandos claros para humanidade – como já apontamos a Lei de Deus. Se Deus deu comandos a serem obedecidos é necessário que aqueles que receberam os comandos tivessem arbítrio para obedecer.  

Isto é, para receber um comando é necessário ter plena condição de compreendê-lo e ao compreendê-lo a capacidade escolher se ira ou não obedecer ao comando estabelecido. 

Mas, vejamos, há implicações, este argumento, da consciência e da liberdade de escolha são ótimos e, claro, válidos. Porém, devem ser utilizados com cuidado porque pode remeter a uma independência humana nas escolhas e na obediência à Lei de Deus. Por isso, reformadores como Lutero e Calvino, rejeitaram esta perspectiva. 

Então, ao apontarmos esta realidade da escolha através da consciência, vamos ver quais foram as 3 objeções dos reformadores Lutero e, claro Calvino, que seguiu, posteriormente, a mesma linha de raciocínio que Lutero. 

Objeções: 

(1) Que a proposta da Lei de Deus é para revelar o pecado mais do que prover a cura.  

(2) Que a Lei de Deus serve para revelar nossa dívida e não a habilidade de viver em sujeição a Deus. 

(3) Que a Lei de Deus nos convence de nossa inabilidade de viver em sujeição a Deus. 

Ou seja, se trouxemos aos reformadores Deuteronômio 30, por exemplo, eles nos apresentariam Romanos 3:20. O que faz todo o sentido. Essa passagem, assim como tantas outras, realmente nos remete a nossa dívida e não a habilidades, remete a nossa incapacidade de nos sujeitar a Deus e, verdadeiramente, a Lei não nos traz Cura. Mas, ao mesmo tempo, não prova a incapacidade do ser humano de fazer uma escolha realmente livre. A negação do livre-arbítrio é, em realidade, uma inferência. 

Não quero ser simplista quanto a teologia dos reformadores, este é apenas um exemplo. E para fazer justiça Lutero, o reformador, estava em um contexto de embate teológico com Erasmo de Roterdã (1466 – 1536), e precisava fazer uma clara distinção entre Lei e Graça. Lutero, Calvino e outros reformadores foram homens que seu tempo precisou que eles fossem, e foram bastante felizes no objetivo de esclarecer as diferenças entre Lei e Graça. Mas, não podemos tomar suas inferências como verdades absolutas. Devemos, antes, olhar para onde eles apontavam, Sola Scriptura

Romanos 3:20 entre outros textos, realmente afirma que a Lei “nos torna plenamente conscientes do pecado”, mas não diz que é a sua única intensão e ou sua única função, nem a sua totalidade. Veja o que diz: Gálatas 3:24  

Assim, a lei foi o nosso tutor até Cristo,  
para que fôssemos justificados pela fé.” 

Gálatas 3:24

O Apóstolo Paulo, na carta aos Gálatas, diz que a outra função. Além disso, a Lei provê a revelação do caráter de Deus e Seu desejo para o comportamento humano. Em suma, a Lei exibe múltiplas funções. 

Enfim, em toda a História Bíblica, Deus está chamando-nos a um relacionamento. Seja na tutela da Lei seja na justificação em Cristo pela fé, é sempre através da Graça de Deus que nós chegamos a Ele. É sempre Deus nos chamando misericordiosamente a um relacionamento. E, todo relacionamento, exige liberdade. 

Deus não nos chama com a expectativa de sermos perfeitos, que façamos tudo certinho à risca, mas um relacionamento exige liberdade, responsabilidade, comprometimento com Aquele que nos chamou. E comprometimento exige obediência que é fruto da confiança que temos Naquele que nos chamou. Obediência à Lei de Deus é o resultado de termos sidos salvo em Cristo. 

Em resumo, sim, os seres humanos estão na Depravação Total, na morte, cegos em seus próprios pecados e erros, mas a Graça em Cristo nos libertou para a Liberdade.  

Ele nos deu Seu Santo Espírito que nos consola e fortalece para seguir Nele em obediência.  

De outra forma, sem a existência de livres escolhas, a Graça seria barata. Isto é, sem a obediência e sem a possibilidade e a necessidade de dizer “sim” a Graça de Deus em Cristo, cairíamos inevitavelmente em universalismo – que é o que acontece em muitas igrejas da Hiper Graça porque muitas delas, costumam negar o livre-arbítrio – afinal, se não somos capazes de escolher se não temos liberdade, ou há em Deus um lado obscuro influenciado pelo mal, o que todos os cristãos negam, ou todos de qualquer forma em algum momento serão salvos.  

Referências: 

Picirilli, R. E. Free Will Revisited. Eugene, Wipf and Stock: 2017. Digital 

Wenham, G. J. Comentário Vida Nova, organizado por D. A. Carson, et al. São Paulo. Vida Nova, 2009 

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