Os hebreus, assim como os gregos, têm sua própria mentalidade. E, através das Escrituras Sagradas é que, esta mentalidade, se mostra mais evidente. Assim, os cristãos que compreendem as Escrituras como revelação e ponto de prolegômenos para suas especulações a respeito do mundo, devem considerar as diferentes perspectivas, a grega e seu caráter mais subjetivo e a dos hebreus com um caráter objetivo. 

Em nossos dias, os gregos, de certa forma, venceram. A mentalidade helênica é, em grande medida, a lente pelas quais vemos e entendemos o mundo contemporâneo. Até mesmo ao lermos as Escrituras aplicamos à leitura o modo helênico de estudar, o que, claro, pode causar algumas confusões. 

A maneira que o antigo povo hebreu olhava e expressa a realidade que o cercava é muito mais concreta e dinâmica em relação ao povo helênico. São descrições de um mundo palpável, experiências em um mundo físico, por isso, a Bíblia tem tantas imagens, metáforas e narrativas. 

Por exemplo, a palavra FÉ, emunah, em Habacuque 2:4b, “(…), mas o justo viverá pela sua fé.” esta palavra não significa somente crer, como na mentalidade grega, emunah expressa muito mais que algo abstrato que fica simplesmente na cabeça do que crê, emunah expressa firmeza, fidelidade, estabilidade. Crer em Deus, da perspectiva hebraica, é como ser uma estaca firme. O que diz Isaias 22:23a: “Eu o fincarei como uma estaca em terreno firme”. Firme é amam, tem a mesma raiz de emunah(Lee e Sayão) 

Outro exemplo interessante é “Meditar”. Quando lemos que devemos meditar, geralmente, nos portamos como gregos, que, quando uma questão repousa em sua mente, entra em estado contemplativo, como fazia Sócrates, buscava de alguma forma ficar inerte para que os pensamentos não “fujam”. Para o hebreu, meditar é muito mais, o termo meditar significa “gemer”, “lamentar”, “suspirar”, “falar”, “proferir” “murmurar”. 

Resumidamente, o hebreu considera, em seus relatos do mundo, mais importante a essência das coisas e suas funções objetivas. Enquanto os gregos preferem descrever as aparências das coisas. Se pudéssemos perguntar a dois representantes dessas distintas perspectivas, a respeito de uma cadeira, por exemplo, o hebreu diria: algo de madeira feita para estudar ou trabalhar, isto é, sua essência e função. Enquanto um grego diria: baixa ou alta, pequena ou grande, retangular, ou seja, descreveria sua aparência. 

É possível notar a mentalidade de um povo ao percebermos suas linguagens artísticas como é o caso da poesia.  

O gênero lírico, que se originou na antiga Grécia, como uma manifestação cantada e que depois, na idade média, passa à palavra escrita, tem entre suas características mais significativas a manifestação da subjetividade. Esta subjetividade alcança seu ápice na tradição filosófica depois. Sendo assim, o embrião de uma interioridade que se manifesta em individualidade passando a deixar em segundo plano a vida comunitária (D’Ambros). 

Enquanto a poesia hebraica sempre se expressa com imagens claras e objetivas da realidade e, que pode ser observada em Cânticos 7: 2, por exemplo: “Seu umbigo é uma taça redonda onde nunca falta o vinho de boa mistura. Sua cintura é um monte de trigo cercado de lírios.” Nos salmos sempre somos chamados à vida comunitária enquanto povo de um único Deus “Vinde, cantemos ao SENHOR; jubilemos à rocha da nossa salvação. Apresentemo-nos ante a sua face com louvores, e celebremo-lo com salmos.” (Salmos 95: 1 – 2.) 

A questão é que, a mentalidade dos hebreus, é significativamente diferente em relação a mentalidade dos gregos. E este é um problema sério que todo cristão, sejam os filósofos ou não, devemos nos atentar, nos perguntando através de quais lentes temos visto e medido o mundo?  

Dessa forma, com diferenças tão consideráveis, é óbvio que devemos conhecer, ou pelo menos reconhecer as diferenças intrínsecas à essas duas perspectivas. Compreender se é possível uma assimilação ou é necessária uma cisão desses pontos de vista tão distinto. Não é necessária uma rejeição completa da filosofia como defendia Tertuliano, mesmo que quando o lemos percebemos caraterísticas significativas da cultura helênica que o cercava, como os estoicos. (González).  

Mas é importante reconhecer que o cristianismo é origem judaica e tem como sua fonte principal o judaísmo. Um filósofo que entende a si mesmo como cristão precisa ter em mente este aspecto. (Naugle) 

A filosofia é fruto de Atenas enquanto, o cristianismo, fruto da Jerusalém, e isto faz uma grande diferença Abraham Joshua Herschel (1907 – 1972), filósofo e rabino, observa que desejam o conhecimento e a sabedoria com o objetivo de reverenciar à Deus, enquanto os Gregos desejavam o conhecimento para compreender. E, hoje, o conhecimento é desejado para “usar”. (Apud. Naugle) 

Estas considerações de Boman refletem as diferenças entre o Hebreu e Sócrates, como representante da sua cultura:  

Quando um problema apoderava-se de Sócrates, ele permanecia imóvel por um período indeterminado em profunda reflexão [Simpósio 175b]; quando a Sagrada Escritura é lida em voz alta na sinagoga, o judeu ortodoxo move todo o seu corpo incessantemente em profunda devoção e adoração. Na maioria, os gregos experimentam vividamente o mundo e a existência enquanto levantam-se e refletem, mas o israelita alcança o zênite no movimento incessante. Repouso, harmonia, compostura e autocontrole — este é o estilo grego; movimento, vida, profunda emoção e energia — este é o estilo hebreu.” (Boman). 

Dito isto, a existência de diferenças significativas na estrutura do pensamento hebreu e a estrutura do pensamento grego, é importante ressaltar a mentalidade contemporânea, que, como vimos, é a mentalidade do “uso”, ou seja, é uma mentalidade utilitarista, por isso precisa de algumas ressalvas ou considerações. 

A Mentalidade Contemporânea e a Mentalidade Bíblica. É inegável que, através da tecnologia e do mercado, o mundo é um lugar muito mais ameno à hostilidade comum à natureza. Mesmo em uma democracia intermediada pelo Estado os instintos de sobrevivência estão envoltos em um clima de segurança em detrimento, da liberdade, pensando, claro, como teóricos da liberdade e do Estado natural como Hobbes, Locke e Rousseau.  

Assim, vida e relações humanas não são o que eram há pouco mais de 200 anos. 

Há pouco mais de 200 anos a vida era muito mais cruel mesmo para aqueles gozassem de uma vida considerada abastada. E, para aqueles que não estivessem de dentro de um clã, por assim dizer, privilegiado, a grande maioria das pessoas, as condições de vida eram, o que hoje podemos considerar desumana.  

O mundo melhorou econômica e tecnologicamente, mesmo que isso não reflita uma melhora nas condições morais do ser humano. Qualquer pessoa da classe média hoje vive melhor do que aqueles considerados ricos em séculos passados. 

Com isto, a facilidades trazidas pela tecnologia e o modelo capitalista de organização, a vida comum dos seres humanos também mudou. Mudou à sua maneira de pensar, a forma de olhar e perceber o mundo, e, consequentemente a maneira como organiza seus pensamento e vida prática. 

À princípio, não é algo ruim, a pandemia do coronavírus em 2019, por exemplo, poderia ser muito pior em um mundo menos tecnológico e menos organizado cientificamente. Porém, esta nova organização social, agora capitalista e tecnológica, reestrutura o pensamento e a vida cotidiano dos indivíduos, e, essa nova estrutura de pensamento e vida também precisa moldar-se à uma nova cultura social da coletividade contemporânea. 

Para exemplificar, se pudéssemos perguntar a uma criança há 2 do século porque ela está viva? A criança provavelmente responderia “porque algum ser vivo morreu”. A relação de uma criança com a natureza era muito mais profunda e de dependência do que é nos dias atuais. Ou seja, se a criança não pudesse aprender a abater um animal (em outros tempos até mesmo caçar) com as próprias mãos ela morreria de fome. 

Se fizéssemos a mesma pergunta a um adulto hoje, no século XXI, esta percepção é praticamente inexistente. Um vegetariano só consegue ser vegetariano em uma sociedade onde animais não precisam ser abatidos com as próprias mãos. Em um mundo onde há uma abundância de outros alimentos capazes de suprir suas necessidades fisiológicas. 

Mesmo aqueles não são vegetarianos, porém, adeptos de ideias como a “ética animal”, por exemplo, somente podem desenvolvê-la onde a percepção de matar um animal para sobreviver quase desapareceu ou desapareceu completamente. Ou seja, até mesmo certas ideias surgem a partir de condições externas. Ideias como o vegetarianismo somente ganham espaço em um mundo onde a fome não é um problema. 

Uma observação, a ideia de preservação animal é antiga e, inclusive, bíblica, Provérbios 12:10, mas o conceito de “ética animal”, isto é, elevar os animais à condição de igualdade moral à de um ser humano, a menos de 2 séculos, soaria risível até para uma criança. 

Enfim, estes são somente alguns exemplos para observar as mudanças na mentalidade dos últimos séculos e como esta mentalidade nos distancia da mentalidade bíblica e isto pode ser danosa à interpretação das Escrituras. 

Resumidamente, o Homem moderno, resultado do Iluminismo (Séc. XVII – XVIII), reconhece seu instinto de sobrevivência, mas, está deslocado de uma natureza antes hostil, desta forma, percebe-se em uma realidade completamente distinta do contexto histórico e cultural de outros tempos.  

Os Homens, hoje, olham para si mesmo como fonte de todo conhecimento e razão de ser (Kant). Tornou-se incapaz de reconhecer, observar e absorver o entendimento das causas primeiras, no sentido aristotélico (Feser), em suma, o ser humano, tornou-se incapaz de observar Deus em seu cotidiano. E, de alguma forma, isto reflete na teologia contemporânea, Deus se transformou em um fazedor de espetáculos que só pode ser encontrado em grandes estádios de futebol onde faz milagres extraordinários – um pensamento completamente alheio a Homens do passado, onde a doutrina da providência é, em última análise, a doutrina do Deus presente no cotidiano. 

Para fazer um novo contraste, este o Homem contemporâneo que cheio de sua própria sabedoria e razão pretenciosa, dita científica, enche igrejas em busca de conforto físico e emocional, este mesmo Homem é incapaz de compreender textos como “(…), a Tua vara e Teu cajado me consolam.” Salmo 23:4b (Bíblia palavra-chave). Um texto onde o salmista sente a punição ou o castigo divino como sendo o consolo que precisa. Porque esta punição resultará em discernimento, seja ao escravo (Exo 21:20), seja aos tolos (Pv 10:13; 26:3) seja aos filhos (Pv 23:24; 22:15; 29:15). 

Neste salmo, inspirado pelo Espírito, o salmista mostra não somente a sabedoria de Deus, ao mesmo tempo, mostra um homem perplexo que no mais íntimo recôndito do seu espírito descobriu o que é temor reverente diante da soberania do Senhor.  Este homem compreendeu, inclusive, corajosamente escreveu e cantou, que a punição, recebida de um Deus sábio e soberano, é o mesmo que receber consolo. Quão distante estamos deste sentimento. Quão impressionante é este relato para nós. É impressionante porque estamos em um mundo que está constantemente buscando conforto e fugindo das tristezas, das dores e do sofrimento, enquanto um Homem bíblico não desejava isto para si, claro, mas concebia que desolação era para seu próprio desenvolvimento espiritual. Isto demonstra a discrepância entre nós e antigos Homens de fé. 

É impressionante quando conseguimos compreender com profundidade está ideia bíblica. O salmo passa a ecoar dentro de um ser que não é capaz de compreendê-lo completamente e pensa: “como a punição é também consolo?” É a primeira pergunta que nos vem à mente. Pelo menos é a minha. 

Se torna ainda mais interessante quando percebemos que esta percepção e compreensão, de punição, consolo e Graça, somente pode ser alcançado através da manifestação do Espírito Santo em nós. 
 

Somente na Graça de Deus que há Cristo Jesus é possível compreender, escrever e cantar que “a punição é o próprio consolo” que os servos, os tolos, e os filhos precisam. Principalmente quando a palavra consolo (nãham) em hebraico é também traduzida por “suspirar” no sentido de confortável ou somente “tranquilo”. (Bíblia palavra-Chave, dicionário Hebraico) 

Assim, é, para a mentalidade contemporânea, bastante difícil compreender um texto como o Salmo 23:4b, uma mentalidade que busca constantemente o conforto e o bem-estar, transforma o texto em algo contraditório, onde a punição é a exclusão do conforto. Principalmente quando, no versículo 1 do salmo 23, entende errado o “nada irá faltar”. Uma leitura equivocada de uma mentalidade contemporânea pensará em termos de contradição – uma coisa exclui automaticamente outa. 

Mas, é uma contradição que não existe na mentalidade do hebreu da antiguidade, escritor do salmo, para o escritor bíblico os opostos não se contradizem, os opostos se complementam. A ideia de contradições mutuamente excludentes é própria do pensamento grego não da mentalidade bíblica. 

Enfim, a Bíblia têm seus próprios prolegômenos para a filosofia que se pretende cristã. Então, com prolegômenos bem estabelecidos, com constante exposição bíblica, tendo em mente a natureza hebraica das Escrituras, reconhecendo as estruturas de cada mentalidade, hebraica, grega e contemporânea e, compreendendo adequadamente a ideia de graça comum como auxiliar da Graça especial, é possível uma filosofia cristã saudável. 

Lee, Susie; Sayão, LuizHebraico, Pensamento ConcretoMaterial didático. IBNU: 2020.  Digital. 

Gonzáles, Justo L. História da literatura Cristã Antiga. Rio de Janeiro, CPAD: 2020. Impresso. 

Naugle, David K. Filosofia: Um guia para estudantes. Brasília, Monergismo: 2014. Digital. 

D’Ambros, Bruno. A noção de sujeito na lírica e na tragédia grega antiga e o nascimento do pensamento ocidental. < https://cienciassociais.paginas.ufsc.br/files/2015/03/Texto-05-A-no%C3%A7%C3%A3o-de-sujeito-na-l%C3%ADrica-e-na-trag%C3%A9dia-grega-antiga.pdf > 

Kant. Immanuel. Resposta à pergunta: “Que é o Iluminismo?”. Lusosofia. PDF < http://www.lusosofia.net/textos/kant_o_iluminismo_1784.pdf > 

Feser, Edward. A Última Supertição: Uma Refutação do Neoateísmo. Belo Horizonte, Cristo Rei: 2017. Digital. 

Bíblia, Almeida Revista e Corrigida. Palavra-chave, Hebraico – Grego. Rio de Janeiro, CPAD: 2015. Impresso. 

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