Temos um histórico de legalismo! E esse histórico tem diversos motivos que não é possível aprofundar neste momento. Mas, este histórico, sempre resulta, em um sentimento de superioridade moral sobre os outros, seja entre irmãos seja com os de fora. Às vezes, sobre pecados anteriores à conversão, às vezes, julgamentos sobre pecados cometidos por falta de maturidade espiritual. Como se tivéssemos nascido maduros ou sem pecado. Aliás, dizer não cometer pecados é chamar a Deus de mentiroso! (1 Jo 1:10) E, ao mesmo tempo, estamos engando a nós mesmos (1 Jo 1:8).

Este pensamento legalista distorce a doutrina da Graça. Isso é, a salvação de Deus em Cristo Jesus é um presente imerecido, e nada pode ser colocado como acréscimo a cruz de Cristo. Assim, a soberba da superioridade moral é uma vaidade, como toda vaidade, desnecessária! Não foi por mérito ou superioridade moral ou qualquer outra coisa que fomos salvos (Rom 3:23; 1 Co 1:23) e certamente não foi superioridade ética (Gal 3:28).

Toda a obra do Deus Trino é sobre a Graça invadindo os corações de seres humanos indignos para dar-lhes a oportunidade de serem trazidos de volta para um relacionamento santo com o Ele, o criador. Esta obra custou a vida do próprio Filho Deus! E nada pode ser comparado a isto.

Quando entendemos a Graça de Deus, quando buscamos mais a graça de Deus do que nossa força moral é quando realmente nos tornamos livres para oferecer a verdadeira liberdade de Cristo para aqueles que  fazem escolhas morais distorcidas pela natureza caída, como nós também fazíamos. 

Como no primeiro século vivemos em tempos de relativismo moral e cultural. Um contexto que transforma todos os valores em valores equivalentes. Vivemos em um século que transforma a Verdade em arrogância. [1]

Curiosamente, nossos tempos, como no século primeiro, tomam a moralidade cristã como ofensa. Os primeiros cristãos eram exortados a não pregar porque poderiam ofender os deuses pagãos e, assim, todos serem punidos coletivamente. O monoteísmo judaico e cristão, aos ouvidos pagãos, era intolerância.

Hoje, a única diferença é que os deuses não são mais as figuras mitológicas, hoje, os deuses, são corações humanos cheios de si mesmos. No fundo as figuras mitológicas pagãs também são isso, construções de um coração cheio de si mesmo. O Deus único e Verdadeiro, é totalmente outro. [2]

O relativismo filosófico contemporâneo é em si mesmo uma contradição, e, claro, indefensável! Porque acaba em um efeito neutro – se tudo é absoluto nada tem verdadeiro valor. O que é um absurdo! O efeito do relativismo é neutralizar a si mesmo.

Porém, nem sempre a lógica é perceptível. Ao passo que, a fé em Cristo e na sua obra redentora, por mais lógica intelectualmente que seja, não é isto que assegura a vida eterna com Cristo. A vida cristã é muito mais que desenvolvimento intelectual. A demanda intelectual deve estar direcionada e subordinada a Graça, e não o contrário.

Jesus exige abandonar ídolos. Abandonar outros deuses, inclusive, quando esse deus, é próprio coração.

Então, quando compreendemos que foi a Graça que nos salvou e não os méritos sejam quais forem, estamos livres para olhar para o próximo como aquele que também precisa da Graça, assim como nós precisamos. Pois, assim como ele, eu também não mereço a Graça de Deus manifestada em Cristo, mas, por misericórdia fui alcançado e, agora estou livre, para oferecer esta Graça capaz de transformar e derrubar todos os ídolos seja de pau, pedra ou um coração cheio de si mesmo. 

Somente um coração que os ídolos foram derrubados, ou melhor, estão sendo progressivamente derrubados, é que por gratidão podemos fazer escolhas morais mais adequadas. (1Co 5: 10-11; Gal 5:20).

  1. Kenner, Craig. Faith in Jesus Not About Social Superiority. 2020. em: https://craigkeener.com/faith-in-jesus/
  2. Barth, Karl. Comentário à carta aos romanos. São Paulo. 2020

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