Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo. Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença.” Efésios 1: 3-4.

Está seção da carta, entre os versículos 3 e 14, é um prólogo, que guiará, o Apóstolo, por toda a epistola. [1] E, ao mesmo tempo, um lindo cântico de louvor – um “Berakah”, isto é, um Grito de Louvor – por todas as coisas que Deus têm feito por nós em Jesus Cristo. [4]

É aqui que os ensinamentos que estarão por toda a discussão de Paulo na carta têm início. O Apóstolo, deseja não somente que seus leitores compreendam todas as maravilhosas bênçãos que foram conquistadas por Cristo em nosso favor, mas, também, que se alegrem profundamente nessas bênçãos, que, em última análise, são bênçãos imerecidas, porém, derramadas misericordiosamente por um Deus amoroso e terno que fez aquilo que para os homens é loucura para alcançar aqueles que de antemão Ele mesmo escolheu para a salvação.

Este é o foco da seção. A partir do versículo 3, vemos que Deus nos predestinou, “Escolheu para Ele”, vers. 4-6, e, Ele mesmo, nos redimiu vers. 7-8.

Desta forma, este Deus é “eulogétos”, isto é, “Bendito” palavra usada tanto no Antigo Gn 24: 27; I Re 8:15; Sl 41: 13 quanto no Novo Testamento II Co 1: 3-4; I Pe 1: 3-6, para se referir a Deus e a Cristo Mc 14:61.

Neste vers. 3, o Apóstolo reforça a paternidade de Deus que tem como resultado as “Bençãos espirituais” e que estão garantidas pela graça e pela obra e soberania de Cristo, Vers 2.

No verso 2 vemos Deus como Pai, no verso 3, Deus é “o Deus do Senhor Jesus Cristo”. Paulo quer demonstrar para seus leitores com “Deus do Senhor Jesus” que Yahweh, como era conhecido, é o centro da encarnação em do Filho. Uma realidade que demonstra o Deus que se fez Homem – o tema será aprofundado no versículo 17.

E, aqui, também, o Apóstolo está reafirmando Romanos 8 :14-17, o Jesus é o Filho de Deus e nossa adoção acontece por causa da obra de Cristo. Pois, como no verso 2, Cristo é o autor da nossa redenção que o Pai efetuou em nós e isto pode ser observado e confirmado através das “Bençãos Espirituais nas regiões celestiais”, que recebemos por meio da obra do Espírito Santo, que é o tema do versículo. Estas bençãos são inumeradas uma a uma por toda a seção vers. 3-14.

Em um único versículo, o Apóstolo usa 2 vezes a mesma palavra, “Benção”, “Todas as Bençãos” e “Bençãos Espirituais”. Há claramente uma ênfase. Isto quer dizer, Deus não poupou em nos abençoar. Pelo contrário Ele segundo sua rica generosidade derramou suas riquezas sobre nós, verso 7-8. Tudo que precisamos já nos foi dado em abundância. Que esta seja nossa oração, que possamos compreender e nos alegrar em tudo que o Pai nos deu através da obra do Filho e que nos é manifesto pelo Espírito.

As bençãos são espirituais porque vem do Espírito Santo e, claro, do plano espiritual. O Pai por causa da obra do Filho colocou em nós Seu Espírito. É a promessa escatológica de Ezequiel 36: 26-27, que foi inaugurada em Atos no Pentecostes, e pode ser experimentada por nós agora, no presente século.

Como está escrito:

Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis.”

Ezequiel 36: 26-27.

Está benção espiritual, é manifesta como Fruto do Espírito de Gálatas 5: 22-23 e, como os dons espirituais de I Co 12: 4-11; 27-31. Todas essas bençãos são experimentadas nas “regiões celestiais”, no Reino espiritual, isto é, não se refere ao céu propriamente dito, mas ao Reino espiritual, que agora é nosso novo lugar, Efésios 1: 20; 2: 6; 3: 10; 6:12. Estamos neste mundo como exilados 1 Pe 1:1; 17; 2: 11, porque agora somos cidadãos de um novo Reino inaugurado por Cristo, a cidade dos céus, Fl 3:20, membros de uma nova família em um novo país. Está é realidade espiritual e é nesta realidade que nós podemos experimentar todas as bençãos espirituais que Deus derramou sobre nós.

E todas essas bênçãos somente são possíveis serem vividas “em Cristo”, um termo paulino que expressa a união do escolhido com seu Senhor. A união da Igreja como corpo à Cristo sua cabeça. Por isso, a ênfase,” em Cristo”, porque tudo é através Dele e para Ele são todas as coisas. Tudo que somos para o Pai, e todas as bençãos que temos, somente podem ser vividas através de nossa união a Cristo.

1.1     Benção 1: Predestinados à Salvação, a Escolha do Eterno antes da fundação do Mundo

Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença. Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade, para o louvor da sua gloriosa graça, a qual nos deu gratuitamente no Amado.” Efésios 1: 4-6.

A primeira benção citada pelo Apóstolo Paulo é a que Ele “Nos escolheu para sermos santos e irrepreensíveis diante Dele”. Isto é, antes mesmo da fundação do mundo, Deus nos escolheu para Ele. De tudo que há na Terra, Deus fez uma escolha especial para si mesmo, escolheu um povo para o “Louvor da Sua Glória”. Antes que toda a existência viesse à tona, antes de toda criação, Deus de antemão olhou para nós e por sua divina escolha nos predestinou para ser povo Seu. Como um tesouro pessoal, Deuteronômio 14:2.

E, esta escolha, não acontece porque somos dignos, ou por sermos mais fortes, ou porque somos melhores que qualquer outro, está escolha esta baseada única e exclusivamente no amor de Deus.

Este é o clima de toda a carta. Por toda a epistola toda ênfase é colocada sobre o amor de Deus e não no valor humano. Porque, do contrário, se tivéssemos algum valor, que graça e misericórdia seria necessária?

Até mesmo os seres humanos são capazes de amar quando há algum valor. Quando é possível encontrar em alguém algum valor para nós.

Mas, a realidade bíblica é que não há absolutamente nada que podemos fazer para alcançar a misericórdia e a graça de Deus. Não somos nada e não importa o que possamos nos tornar com todo tempo que nos é dado. Mesmo que tivéssemos tempo infinito, ainda assim seria insuficiente para que nós pudéssemos encontrar algum bem em nós mesmo ou fazer algum bem capaz de alcançar a graça e misericórdia Divina. Para nós, mortais, o amor de Deus é inalcançável, porque a realidade é que não a merecemos.

Dessa forma, com essa perspectiva profundamente pessimista da condição humana diante de Deus, é que se torna possível entender Graça e a misericórdia dessa escolha, Efésios 2: 8-9, Romanos 9: 11-16.

Está Escolha, está Graça, é, única e exclusivamente, fruto do Amor de Deus. E, por isso, podemos confiar totalmente pois a escolha para a salvação é Dele, é baseada Nele, que é fiel. Então, nada pode ou poderá nos separar do Seu Amor porque Seu profundo Amor, não está firmada sobre obras humanas, antes, está firmada em Sua obra Eterna, Cristo! Por isso, essa Escolha é “em Cristo”, porque o motivo é Ele mesmo.

Este é o foco do versículo, a nossa salvação, que se deu pela eleição, que somente é possível por causa de Cristo. E como está eleição foi feita antes mesmo da fundação do mundo, foi também antes da fundação do mundo que o Cordeiro foi cortado. Portanto, é em cristo, e somente em Cristo que nos tornamos especiais para Deus. É nossa união a Cristo que nos torna preciosos para Deus do contrário ainda estaríamos debaixo da ira, ainda estaríamos sobre a marca do pecado.

Alguns entendem que a eleição é puramente corporativa, outras que a eleição é somente individual. Mas, a perspectiva bíblia nos apresenta as duas condições. A eleição da Igreja, o povo que Deus escolheu, e, ao mesmo tempo, os indivíduos que fazem parte deste povo. Os indivíduos passam a fazer parte desta realidade, a eleição corporativa, depois da decisão de fé em Cristo. Mas, é preciso mencionar que, está fé é também fruto da atividade divina. Isto é, é também obra de Deus Triúno João (ver)

Desta maneira, a eleição, seja corporativa seja individual, é escolha exclusiva de Deus. Tanto a Igreja quanto o indivíduo devem estar “em Cristo”. Em uma perspectiva pessoal, o indivíduo deve estar unido a Cristo e em uma perspectiva corporativa o sujeito deve estar unido a Igreja, que consequentemente está unida a Cristo.

Ou seja, cada indivíduo foi escolhido para se tornar corpo de Cristo. Pessoas de um Reino eterno, comunidade de Cristo. Primeiramente somos unidos à Cristo depois unidos a Igreja, o corpo.

Como vimos, está eleição, está escolha para salvação, para se tornar corpo de Cristo, ser Igreja. Aconteceu, de fato, antes da fundação do mundo. Deus tinha o pleno conhecimento da Queda de Adão e Eva Romanos 5: 12, Mas, mesmo assim, baseado em seu amor, decidiu concretizar Sua a obra. Foi uma decisão de um amor tão profundo que dificilmente nós poderemos entender completamente algum dia. Deus já conhecia exatamente tudo que irá acontecer, inclusive a morte do Seu Filho – lembre-se o cordeiro foi cortado antes da fundação do mundo – mesmo assim, decidiu completar Sua obra, decidiu pela encarnação, decidiu pela morte na cruz por nossos pecados. Deus possibilitou a salvação antes mesmo da Queda.

A benção é acompanhada da proposta, sermos “santos e irrepreensíveis diante Dele”. Como no versículo 1, o Apóstolo retorna e reafirma à necessidade de um povo santo. Um chamado à uma vida de acordo com a nova natureza conquistada para nós em Cristo. Um chamado à responsabilidade.

É uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, um grandíssimo privilégio, pois fomos escolhidos para salvação e, simultaneamente, escolhidos como representantes da santidade de Deus na Terra. É uma Escolha, um chamado à responsabilidade e um privilégio descrito em Levítico 11: 44-45 sede santos porque eu Sou santo”, 1 Pe 1:16. Lev 19: 2; 20: 7; 26.

É sempre importante lembra que a benção da salvação vem acompanhada da responsabilidade da santificação.

Um crente “carnal” é uma aberração. É, por assim dizer, uma contradição ambulante. Não faz sentido. A vida do salvo deve corresponder a realidade da nova natureza, Gálatas 5: 27. Pois este é o objetivo de Cristo, apresentar ao Pai uma Igreja Santa, imaculada Êxodo 29:1; Colossenses 1:22, isto é, livre de culpa. É a pureza moral, salmos 15: 2; Provérbios 10: 9, pois, devemos viver “diante Dele” em Sua presença, pois por tudo haveremos de prestar contas, Hebreus 14:13.

Enfim, Deus nos predestinou à salvação, foi uma escolha livre no conselho do Seu profundo amor. Nunca devemos ser pretenciosos a ponto de achar que há qualquer mérito em nós para que Deus nos desse está maravilhosa benção, a benção da salvação. Não fomos nós que o escolhemos foi Ele que nos escolheu, João 15:16. A escolha foi Graça, generosidade e pura bondade!

A raça humana foi atribuída grande inteligência, feita a imagem e semelhança de Deus. É capaz de criar milhares de coisas e abrir milhares de possibilidades, a história humana no tempo demonstra que isso é possível. Há menos de um século, não tínhamos ido a lua, hoje os Homens sonham com marte e já existe um hotel no orbitando a Terra. Conseguem desenvolver ciência de toda sorte. Chegam a ser grande no mundo dos negócios ou em tantas outras áreas. Mas todas essas habilidades, por mais que o tempo se alargue, mesmo que tivéssemos tempo infinita na Terra, jamais iríamos encontrar competências, jamais seriamos capazes por nós mesmos de nos tornar algo ou alguém que pudesse chegar com obras e méritos diante de Deus em troca de sua salvação.

A salvação é por Graça, única e exclusivamente escolha do amor de Deus. A perspectiva pessimista a respeito da natureza humana é o que nos revela o profundo amor de Deus. O mérito, ou seja, crer no mérito, esvazia a cruz de Cristo.

O Cordeiro foi cortado antes da fundação do mundo para pudéssemos ter vida. E esta vida se manifesta no Espírito, em santidade. Isto é, aquilo que era ordinário, nós, passa a extraordinário em Cristo.

Escrito por: César Henrique S. Cardozo

www.cristianismofilosifa.com.br

Soli Deo gloria

Referências

[1]G. R. Osborne, Ephesians Verse by Verse, Bellingham: Lexham, 2007.
[2]D. A. Carson, D. J. Moo e L. Morris, Introdução ao Novo Testamento, Tradução de Márcio Loureiro Redondo, São Paulo: Vida Nova, 1997.
[3]B. L. Shelley, História do Cristianismo, Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.
[4]W. Barclay, “The Letter to the Ephesians trad. Carlos Biagini,” 2021.
[5]A. W. Wainwright, La Trinidad en el Nuevo Testamento: Estudios teológicos, Barcelona: Clie, 2015.
[6]T. Chester, Conhecendo o Deus Trino: Porque Pai, Filho e Espírito Santo são boas novas Trad. Elizabeth Gomes, São José dos Campos, SP: Fiel, 2016.
[7]J. Cottrel, Studies in First Peter: 35 Lessons For Personal or Group Study, Mason, OH: Christian Restoration Association, 2017.
[8]Bíblia de Estudo Palavra-Chave Hebraico e Grego, Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
[9]C. S. Lewis, Cartas de um diabo a seu aprendiz, Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

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