Em amor nos predestinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo, conforme o bom propósito da sua vontade

Efésios 1: 5

No verso cinco, o Apóstolo reafirma nossa filiação em “em Cristo”. Isto é, por meio da obra de Cristo, Deus fez de nós seus filhos, porém, neste momento Paulo acrescenta “em amor”.

Aqui cabe uma pequena explicação, dependendo da versão “em amor” está no verso 4, assim: “santos e irrepreensíveis diante Dele em amor”, e, desta forma, a vida cristã que deve ser vivida em santidade, antes deve estar ancorada no amor à Cristo. O que faz sentido, claro. Porém, se “em amor” estiver no verso 5, o amor de Deus está diretamente vinculado a Sua escolha (eleição) para a nossa salvação. Também faz sentido. Aqui vou considerar que “em amor” está no verso 5.

Como vimos, quando falamos da Trindade, Deus é Pessoa, e como pessoa há Nele sentimentos, como o amor, por exemplo. Sendo assim, podemos dizer que em certo sentido, Deus sabendo tudo o que iria acontecer com a humanidade, sabendo previamente da Queda dos seres humanos, sua separação causada por rebeldia, e, todo mal que criação estaria sujeita, Deus pode ter sentido uma profunda “angústia” um “desconforto” diante de tudo que iria acontecer. Mas Ele sendo Amor, mesmo diante do Seu descontentamento, decidiu realizar toda obra que estava em Seu coração. E foi antes mesmo da criação, em uma escolha livre que ele nos predestinou “em amor” para Ele mesmo como filhos.

1.1.2     Filhos, Paternidade Explicada, o Pátrio Poder

Novamente, o Apóstolo Paulo declara a filiação do cristão. Como em Romanos 8:23 e Gálatas 4:5, “em Cristo” fomos feitos filhos de Deus.

No Antigo mundo romano, à qual o Apóstolo Paulo está inserido, a imagem de uma criança sendo adotada tinha uma conotação muito mais forte desta que temos hoje em dia. A lei romana estava baseada sob “Pátrio Poder”, isto é, o poder do pai. Para a lei romana o pai possuía total poder sobre a vida do filho enquanto vivesse. O pai romano, se assim desejasse, poderia inclusive matar o próprio filho, vendê-lo como escravo ou simplesmente jogá-lo na prisão para corrigi-lo ou castigá-lo. O “Pátrio Poder” era o poder absoluto do patriarca para decidir sobre vida e morte do filho mesmo que este filho chegasse a idades avançadas, mesmo que, o filho, tivesse capacidade para ações políticas ou até ocupar cargos de trabalho.

Claro, é possível supor que, qualquer ação drástica como essas, o pai, poderia passar por algum tipo de conselho familiar, formado por membros homens da casa, mas, não era necessário. Há caso conhecido de pai que condenou o próprio filho a morte.

Devido as leis romanas de “Pátrio Poder”, os filhos não poderiam possuir nada. Qualquer coisa que pudessem receber era propriedade do pai, não importava a idade do filho ou suas responsabilidades.

Com este pano de fundo fica bastante compreensível que a ação de adotar um filho era extremamente importante. Era uma atitude seríssima retirar uma criança que estava em debaixo de um “Pátrio Poder” para colocar debaixo de outro “Pátrio Poder”.

Para que algo assim acontecesse era necessário um ritual simbólico de venda que envolvia balanças e moedas. O verdadeiro pai do menino o vendia para depois comprá-lo de volta por duas vezes até que na terceira compra e venda já não podia voltar atrás. Então, o filho adotado, se dirigia ao magistério romano para legalizar a adoção. E assim estava feito.

O filho adotivo poderia desfrutar de todas as benesses da nova família como um filho legítimo, simultaneamente, estava perdendo todo os direitos de filho da família anterior. Para o processo romano a pessoa adotada era uma nova pessoa. Se tivesse dívidas e obrigações anteriores eram canceladas como se nunca houvessem existido. [4]

O que o Apóstolo Paulo deseja mostrar aos seus leitores é que foi precisamente isso que aconteceu com todo cristão. Estávamos debaixo do poder do mundo e do pecado, mas o Pai “em Cristo” nos transportou para uma nova família e fomos feitos filhos de Deus. Fomos desligados do passado, as dívidas do pecado já não existem, e agora podemos desfrutar de tudo quanto Cristo conquistou para nós, com Ele agora somos coerdeiros.

Paralelamente, mesmo tais leis romanas ainda estivessem em vigência no momento em que o Apóstolo escreve, não há dúvidas que, quando o Apóstolo esclarece a nossa adoção como filho de Deus, ele também está pensando em passagens do Antigo Testamento que se referem aos israelitas como filhos de Deus, Deuteronômio 14:1 e Isaias 30:9. E, claro, na Aliança Davídica de 2 Samuel 7:14. [1]

Mas está adoção, agora, está alicerçada na obra do Filho, “(…) conforme o bom propósito da Sua vontade”. Como vimos, Deus pode ver tudo de antemão, e pode ter tido certa “agonia” ao ter visto a Queda, porém, antes mesmo da Queda Ele providenciou a salvação, e nesta salvação sua escolha não foi “dolorida”. Está escolha foi realizada como “eudokia”, isto é um prazer, um deleite, uma imensa satisfação da parte de Deus, e, ao mesmo tempo, um objetivo baseado na bondade.

Referências

[1]G. R. Osborne, Ephesians Verse by Verse, Bellingham: Lexham, 2007.
[2]D. A. Carson, D. J. Moo e L. Morris, Introdução ao Novo Testamento, Tradução de Márcio Loureiro Redondo, São Paulo: Vida Nova, 1997.
[3]B. L. Shelley, História do Cristianismo, Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.
[4]W. Barclay, “The Letter to the Ephesians trad. Carlos Biagini,” 2021.
[5]A. W. Wainwright, La Trinidad en el Nuevo Testamento: Estudios teológicos, Barcelona: Clie, 2015.
[6]T. Chester, Conhecendo o Deus Trino: Porque Pai, Filho e Espírito Santo são boas novas Trad. Elizabeth Gomes, São José dos Campos, SP: Fiel, 2016.
[7]J. Cottrel, Studies in First Peter: 35 Lessons For Personal or Group Study, Mason, OH: Christian Restoration Association, 2017.
[8]Bíblia de Estudo Palavra-Chave Hebraico e Grego, Rio de Janeiro: CPAD, 2015.
[9]C. S. Lewis, Cartas de um diabo a seu aprendiz, Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
[10]V. Couto, Depravação Total, São Paulo: Reflexão, 2021.
[11]R. E. Picirilli, Free Will Revisited: A Respectful Response to Luther, Calvin and Edwards, eugene, Or: Wipf & Stock Publishers, 2017.

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