Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.” Gálatas 5: 22-23. 

Os filósofos utilizavam o termo “fruto” em sentido figurado, isto é, ampliavam o sentido do termo para fazer uma comparação entre as emoções positivas e emoções negativas. Os peripatéticos, por exemplo, buscavam dominar as emoções negativas, enquanto os Estoicos tentavam rejeitá-las completamente. 

Interessante notar que, algumas das emoções positivas apresentadas pelos filósofos em listas, correspondiam a algumas características do Fruto que o Apóstolo Paulo nos apresenta. Porém, o objetivo de Paulo é mais moral do que emocional. Isto pode ser observado no atributo “Paz” que, em resumo, significa paz nos relacionamentos, como é possível observar no verso 26, do capítulo 5 de Gálatas, e, claro em outros textos de Paulo Rm 12:18; Rm 14:19; ICo 13:11.  

Ao mesmo tempo, “Fruto” não era estranho aos judeus. O Antigo Testamento utiliza a metáfora em algumas ocasiões como em Is 27: 6; Os 10:1; Sl 1, entre outros textos. 

Paulo em Gálatas utiliza “Fruto” como contraste à carne, no sentido de obras, porque “Frutos” são produzidos pela natureza da árvore e para o Apóstolo a natureza do cristão foi transformada em Cristo Gl 5:24. (Keener) 

Quando avançamos até a filosofia medieval, vemos que sabedoria, à grosso modo, é o domínio das paixões e das vontades, submetendo-as à vontade de Deus. 

Isto é, submetendo-se à vontade de Deus um Ser Sábio, Todo-Poderoso e Totalmente Bom estaremos evitando nos submeter à vontade um outro ser que é incapaz de compreender a totalidade da existência, que é fraco e que, ao mesmo tempo, está constantemente sendo enganado por seu próprio coração. Veja mais em Sabedoria Grega e a Sabedoria Hebraica

Muitas vezes quando pensamos em Domínio Próprio, pensamos em controlar a nós mesmos diante do caos que nos cerca, ou seja, o controle que devemos ter de nós mesmos sobre coisas que estão fora de nós. Crises políticas, econômicas, sociais, situações desagradáveis do dia-a-dia ou quando nos sentimos pressionados no trabalho ou em casa. 

Então, quando pensamos que todas essas coisas são externas a nós, pensamos imediatamente em dominar características comuns como a língua, que, realmente, devemos dominar para não ofender ninguém, não gerar maus entendidos, não dar testemunho danoso ao Evangelho de Cristo. E, claro, às vezes, manter a boca fechada é sinal de sabedoria Pv 10:19 

Pensamos sempre em desejos sexuais, o que realmente é importante, afinal, não somos como os animais e, ainda, abster-se impureza sexuais nos preservará em relações amorosas saudáveis. ITs 4: 3-6 

Outro pecado que sempre pensamos é a ira. Em um mundo que cada vez mais nos leva à flor da pele com tantas situações desagradáveis, injustiças, desrespeitos, arbitrariedades dos poderosos, é difícil não esbravejar. É justo irar-se, mas, ao mesmo tempo, não devemos dar lugar ao diabo Ef 4: 26-27

Há inúmeros outros conselhos de guardar-se para dominar a si mesmo e todos eles são úteis e grandemente importantes para nosso desenvolvimento espiritual. 

E quando o mundo inteiro é um caos? Quando estamos diante de uma desordem causada por agentes completamente alheios a nós? Que é o caso de uma pandemia. Do caos econômico causado pelo Estado. Problemas políticos que geram ainda mais injustiça quando nos impede de administrar uma situação tão grave como uma pandemia à nossa própria maneira, tudo isso somados as questões práticas da vida cotidiana onde, muitas vezes, precisamos pensar em como alcançar o sustento diário enquanto precisamos lidar com o luto. 

Toda essa situação causada por isolamento social, com efeitos psicológicos terríveis como confusões, raiva, sofrimentos, medos de infecção e da fome, tédio frustração etc. Principalmente quando já sabemos que medidas tão restritivas não são muito mais efetivas que as medidas a certas no momento certo¹. Tudo isso nos traz a sensação de falta de controle. 

Por isso, é importante pensarmos e refletirmos não somente em como lidar com as situações adversas que o mundo nos apresenta, mas, principalmente, em como reagimos a essas situações que o mundo nos impõe. 

Muitas vezes, os medos, sofrimentos, frustrações, noites mal dormidas, são resultado do nosso desejo de controle. Nascemos com esta vontade de controlar tudo que está à nossa volta. E, isto não é algo ruim, foi próprio Deus nos colocou como administradores no mundo Gn 2:15, mas, o problema, agora depois da queda, é que sempre estamos desejando substituir a soberania de Deus por um pouco mais da nossa administração. 

Veja, quando o Espírito leva Jesus ao deserto para ser tentado, Mateus 4: 1-11, Satanás oferece a Cristo o domínio sobre a Terra e os reinos e isto representava adoração a criatura Mt 4:10 e não ao Criador. Isto é, o Tentador nos induz a abandonar o conhecimento temos da soberania de Deus em troca do domínio do mundo físico. 

Cristo não caiu nas artimanhas do Diabo, nós caímos constantemente. Caímos porque não conseguimos dominar o desejo de domínio. Essa vontade constante de controlar tudo. Muitas vezes, isso que chamei de efeitos “psicológicos negativos”, tem uma raiz no desejo de controlar. Então, esses “berros”, “ira” “linguagem inadequadas” “agressividades” representam a tentativa de trazer ao controle aquilo que nos desestabilizou e isto é o ego sendo confrontado. 

Enfim, entre os filósofos gregos, alguns consideravam a necessidade de dominar sentimentos negativos enquanto outros desejavam, em vão, rejeitá-los completamente. Hoje não é diferente, muitos ainda trabalham sua psiquê neste sentido, ou tentam combater sozinhos o mal que os aflige ou tenta negá-lo, seja negando suas aflições seja negando a existência do próprio mal.  

Mas, o Apóstolo Paulo, nos orienta que, somente é possível alcançar o domínio próprio e vencer o mal quando estamos no Espírito Gl 5:25, ou seja, somente é possível controlar o desejo controlar tudo quando compreendemos a soberania de Deus.  

É quando compreendemos que um Ser onisciente, onipotente, e totalmente bom está no controle que podemos sentir paz suficiente para praticar de forma adequada o autocontrole. É quando percebemos que somos fracos, de entendimento limitado e estamos sendo enganados constantemente por nossos corações que podemos exercer o autocontrole tendo em mente a soberania de Deus. 

Em síntese, o Fruto do Espírito só tem sua completude, somente pode ser vivenciado, quando ressignificamos toda nossa ação no mundo à luz da soberania de Deus. 

Keener, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia. São Paulo, Vida Nova: 2017. Impresso.  

  1. Artigo “Alternativas baratas e eficazes podem funcionar melhor que lockdown”, na Gazeta do Povo, AQUI demonstra dois artigos um da Nature Human Behavior: “Ranking the effectiveness world COVID-19 Government intervetions AQUI e da Science “Inferring the effectiveness if government agains COVID-19” AQUI. EM RESUMO, os artigos apresentados corroboram que medidas altamente restritivas da população têm consequências que não valem a medida já que, as medidas menos restritivas, como permitir que as pessoas circulem, tem efeitos iguais ou diferença pequena de medidas muito restritivas. 

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